5 Maneiras Que a Carrie Fisher Ajudou a Comunidade LGBTQ

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Certa vez, quando um fã de Star Wars falou para a atriz que interpreta a Princesa Leia, Carrie Fisher, que ela era seu modelo a ser seguido, Fisher respondeu, “Eu sinto muito.” Apesar de sua fama e conquistas literárias, Fisher permaneceu franca e modesta—ela se considerava uma péssima atriz (citando seu sotaque britânico instável no decorrer da trilogia original de Star Wars) e falou para sua filha que o histórico de doença mental e abuso de substâncias de sua família lhe deu material suficiente para se tornar uma comediante profissional.

Apesar de Fisher nunca ter se levado muito a sério, seu status de celebridade teve um grande impacto nas pessoas LGBTQ, mesmo que  tenha sido como um subproduto interseccional de seu trabalho como ativista. Pesquisamos cinco maneiras que seu trabalho afetou as vidas de pessoas LGBTQ para celebrar o seu legado em razão de seu falecimento recente.

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1. Ela era uma porta-voz de longa data da conscientização sobre saúde mental

Fisher falou pela primeira vez sobre sua psicose maníaco-depressiva em 1995 durante uma entrevista no ABC News com a Diane Sawyer, o equivalente na época anterior às redes sociais a postar publicamente em seu Facebook. Durante a entrevista, Fisher falou despudoradamente sobre se automedicar com cocaína e remédios controlados. E embora hoje em dia as celebridades e as pessoas em geral falem mais sobre doença mental, Fisher foi uma das primeiras a falar abertamente sobre sua própria luta.

Ela continuou a falar sobre seus problemas de abuso de substâncias e doença mental pelo resto de sua vida. Ela falou sobre o uso de drogas em um artigo de 2001 na Psychology Today, apareceu no documentário para a TV de 2006 do ativista gay Stephen Fry A Vida Secreta do Maníaco Depressivo (The Secret Life of the Manic Depressive) e compartilhou suas experiências com a terapia eletroconvulsiva em 2008 durante uma entrevista no The Late Late Show with Craig Ferguson.

Fisher também era adepta da terapia assistida por animais, e por isso tinha um bulldog francês chamado Gary que ela frequentemente levava para as entrevistas e aparições públicas como uma maneira de destacar sua contínua batalha com sua saúde mental. Todas essas ações ajudaram a forjar seu legado como uma pioneira e porta-voz da conscientização sobre saúde mental, algo que é particularmente importante considerando que as pessoas LGBTQ sofrem com doenças mentais três vezes mais que a população em geral.

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2. Ela se pronunciou contra os padrões injustos de Hollywood para os corpos das mulheres

Entrem as doenças mentais mencionadas anteriormente que afetam a comunidade LGBTQ, há um aumento nos índices de dismorfia corporal e distúrbios alimentares. Apesar desses problemas resultarem de diversos fatores, os padrões de beleza irreais impostos pela mídia tem um papel significativo nessa questão.

Durante a divulgação de Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força, a própria Fisher criticou sem rodeios a exploração que ela sentiu enquanto gravava Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi. Uma atriz de 26 anos forçada a usar um biquíni dourado icônico para ser a escrava sexual de Jabba o testículo gigante, era notório que ela odiava o figurino apesar de sua popularidade entre os fãs héteros. Fisher posteriormente aconselhou a atriz principal em O Despertar da Força para lutar pelo seu figurino, dizendo, “Não seja uma escrava como eu fui.”

Quando os fãs criticaram a atriz de 59 anos por não ter o corpo magro da Princesa Leia em O Despertar da Força, ela respondeu com um monte de tweets dizendo:

“Por favor parem de debater se eu envelheci bem OU não. Infelizmente me sinto ofendida. Meu CORPO não envelheceu tão bem como eu. Nos chupe.

“Os homens não envelhecem melhor que as mulheres, eles apenas tem a permissão para envelhecer.

“Juventude e beleza não são realizações, elas são os subprodutos temporários do tempo e/ou do DNA. Pode tirar seu cavalinho da chuva.”

A verdade é que a atriz foi pressionada a perder 15 kg para seu papel em O Despertar da Força. Ela afirmou, “Eles não me contrataram, eles me contratam menos 15 quilos… Eu estou em uma indústria onde a única coisa que importa é peso e aparência. Isso é tão problemático.”

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3. Ela era uma ativista da AIDS dedicada

O romance semiautobiográfico da Fisher de 1993, Delusions of Grandma, ficcionaliza a morte que ocorreu de verdade em 1985 de seu amigo Julian. Quando ele veio visitar Fisher em sua casa, a AIDS tinha deixado ele incontinente, incapaz de andar ou se virar sem cadeira de rodas e assistência de enfermeiros. Apesar do medo e ignorância generalizados sobre a AIDS e suas causas, Fisher deixou Julian morar com ela por dois meses até seu falecimento.

Em uma entrevista de 1998 com a revista A&U, ela afirmou:

“Eu fazia as unhas das mãos e dos pés dele e ele saia de cueca com o cateter. E ele era lindo. Ele era lindo. As pessoa surtavam, mas isso é algo que aprendi com minha mãe, também. Você cuida dos seus amigos.”

Dez anos depois, Fisher compartilhou de uma experiência semelhante com outro amigo chamado Michael e um amigo “pelo telefone” chamado David Feinberg. Feinberg foi uma autor gay de diversos romances que abordam a AIDS. Seu desejo final era almoçar com a Carrie, mas os dois não conseguiram organizar um encontro antes de sua morte.

Em Delusions of Grandma, Fisher faz referência a sua relação com a ativista da AIDS Elizabeth Taylor, que ela se referia as vezes como sua mãe adotiva. Durante os anos 80 e 90, Fisher trabalhou diretamente com o AIDS Project Los Angeles, doou dinheiro para diversas organizações da AIDS e foi uma das responsáveis por uma angariação de fundos para a amfAR, The Foundation for AIDS Research, uma das instituições beneficentes favoritas da Taylor.

Carrie Fisher, Bryan Lourd
Carrie Fisher e Bryan Lourd

4. Ela amou seus fãs gays (na alegria e na tristeza)

Desde a época que ela começou a se apresentar ao lado dos dançarinos de apoio gays no show de sua mãe Debbie Reynolds, Carrie passou sua vida amando e sendo amada por homens gays. “Eu dei meu primeiro beijo em um homem gay,”afirmou à The Advocate, “E o segundo. E o terceiro.”

Durante os anos 90, Carrie teve um relacionamento de três anos (e uma filha) com um homem que estava no armário, o agente de talentos Bryan Lourd. Lourd por fim terminou com a Carrie para ficar com um homem e isso deixou ela devastada, e fez ela se perguntar se ela de algum modo o levou a isso. Ainda assim, eles criaram a filha deles juntos e mantiveram contato constante, até mesmo realizando viagens em família juntos.

Durante as performances na Broadway de seu monólogo de 2008, Wishful Drinking, Fisher convidava regularmente um espectador gay ao palco para brincar com a boneca em tamanho real da Princesa Leia. Ela disse, “Eu acho que os caras gays se sentem um pouco mais confortáveis comigo…. as pessoas gays são um pouco mais abertas a fazer coisas estranhas.” No entanto, ela disse que raramente se conectava com homens gays por causa de Star Wars, e achava que eles gostavam dela mais por causa de sua participação na comédia de 1981 inspirado em O Mágico de Oz, Hotel das Confusões (Under the Rainbow), e seu papel como uma supervisora de uma irmandade no filme de terror campy de 2009 do diretor gay Stewart Hendler, Pacto Secreto (Sorority Row).

Por um tempo, Fisher afirmou ser assombrada pelo fantasma de R. Gregory Stevens, um amigo dela que trabalhou como assistente político gay do Partido Republicano em Washington D.C.. Stevens morreu de overdose na cama de Fisher em 2005 e Fisher culpou parcialmente a pressão conservadora de permanecer no armário como um fator contribuinte. “Quando ele veio me visitar,” disse, “o alívio era de que ele não precisava fingir tanto.” O fantasma de Stevens de acordo com relatos apertava botões em um brinquedo eletrônico que dizia frases como “Vai se foder”, “Vai comer merda” e “Você é um babaca”—Fisher achou divertido apesar de sua natureza sobrenatural.

Em uma entrevista de 2010, Fisher infamemente tirou o ator John Travolta do armário depois que os advogados de Travolta enviaram uma “carta de repúdio” ao Gawker.com por republicar histórias de que o ator trocava boquetes nas saunas de L.A. Quando foi perguntada sobre a carta, Fisher disse, “Quer dizer, meu sentimento sobre o John sempre foi de que a gente sabe e a gente não se importa. Olha, eu sinto muito que ele se sinta desconfortável com isso, e isso é tudo que eu posso dizer. Só traz mais atenção para isso quando você cria esse rebuliço legal. Apenas deixe para lá”

Não temos certeza se o Travolta gostou da aceitação da Carrie de sua suposta homossexualidade, mas nós adoramos.

(imagem via CNN)

5. Ela beijou uma fã certa vez

Durante uma sessão de perguntas e respostas na Dragon-Con de 2011, uma das maiores convenções sobre ficção científica dos EUA, uma fã apaixonada pediu se ela poderia por favor ficar o cartão com o nome da Carrie em frente ao seu microfone na mesa do painel. Fisher disse que sim e chamou a fã para pegá-lo. Antes da fã ir embora, Fisher beijou a fã na boca, disse brincando logo após: “Bem a tempo do casamento homoafetivo!”. Uma legenda da CNN para o beijo da Fisher perguntava, “O quanto de inveja todos os homens no painel da Carrie Fisher estavam sentindo quando ela beijou uma fã?”

Mas apesar de destacarmos esse gesto fofo como uma maneira de ilustrar a atitude despretensiosa de Fisher, também vale a pena mencionar que muitos de seus fãs encontraram suas forças através de seus textos e de seu ativismo e não pelo papel de Princesa Leia. O trabalho de Fisher ajudou a inspirar incontáveis mulheres, as geeks que curtem ficção científica e qualquer um que esteja lutando contra o vício ou com problemas mentais para não permanecerem em silêncio e marginalizados, e sim compartilharem os holofotes. Eles tinham uma mulher forte ajudando a liderar a rebelião contra as forças das trevas conspirando para mantê-los impotentes, e o universo nunca mais seria o mesmo.

 

Traduzido por Rafael Lessa.