Especialistas explicam os benefícios físicos, psicológicos e sociais da cerveja

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Apesar de estarmos em setembro, a Alemanha está nesse momento celebrando a Oktoberfest, um festival anual de cerveja e muita diversão que dura duas semanas e meia onde se consome mais de 7,5 litros de cerveja a cada ano.

Muitos beberrões sabem dos possíveis efeitos negativos do consumo de cerveja — alcoolismo e ressacas, por exemplo — mas perguntamos a um nutricionista, um psicoterapeuta e dois cervejeiros da “primeira cervejaria gay do mundo” sobre os possíveis benefícios psicológicos, sociais e para a saúde proporcionados pela cerveja.

Os Benefícios da Cerveja para a Saúde

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Manuel Villacorta

Estudos sobre os benefícios para a saúde proporcionados pela cerveja associam a ingestão de duas cervejas de 350 ml por dia (por homens) ao aumento do “colesterol bom”, um menor risco de diabetes tipo 2, sangue mais fino (para evitar coágulos) e menor risco de derrame. A Associação Americana do Coração (American Heart Association em inglês) confirma a maioria desses estudos, mas ressalta que você também pode conseguir resultados parecidos através de exercícios físicos e do consumo de vegetais.

Manuel Villacorta — nutricionista, fundador do Whole Body Reboot, um programa online de bem-estar e perca de peso, ex-colaborador do healthygaylifestyles.com — raramente diz para os clientes cortarem a cerveja completamente de suas dietas, mas sugere que o consumo seja reduzido caso gere um conflito com suas metas de saúde, como tentar diminuir a barriguinha, por exemplo.

“Se você estiver ingerindo álcool constantemente, você muito provavelmente vai interromper a perda de gordura por completo, mesmo se você estiver comendo menos calorias para perder peso,” afirma.

Apesar de a maioria das pessoas dar mais importância para o alto valor calórico da cerveja, Villacorta dá mais atenção à taxa metabólica de cada pessoa, que indica a rapidez que o corpo processa os nutrientes ingeridos.

“Seu fígado só consegue metabolizar o álcool em um ritmo devagar. Então se você estiver bebendo mais rápido do que a velocidade que o fígado leva para filtrar o álcool, você se intoxica, e há casos em que pessoas morreram de intoxicação.”

A taxa metabólica de cada pessoa varia de acordo com fatores como genética, atividade física e idade.

Cerveja light reduz os carboidratos ingeridos, afirma Villacorta, mas não reduz a quantidade de álcool em seu organismo. E apesar da cerveja conter carboidratos que o corpo pode usar para criar energia, ele não recomenda usar a cerveja para substituir outros carboidratos ricos em nutrientes.

“Você deixa de ingerir muitos nutrientes bons ao beber cerveja em vez de comer frutas,” disse. Por exemplo, frutas e pães com multigrãos podem conter fibras, antioxidantes e outros nutrientes como potássio e vitamina C que geralmente não se encontram em cervejas.

Os Benefícios Psicológicos da Cerveja

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Matthew Dempsey

“Quando você usa qualquer substância psicoativa, o benefício é que ela diminui suas inibições que nos impedem de nos soltarmos. A cerveja pode fazer isso e ajudar a silenciar a voz da vergonha que nos diz que há algo inadequado sobre quem somos, e nos sentimos mais confiantes em termos uma voz e sermos notados,” afirma Matthew Dempsey, um psicoterapeuta com um canal no YouTube bastante conhecido que aborda assuntos como slut-shaming, racismo e percepção corporal.

“Qualquer álcool ou droga é neutro na verdade, nem bom ou ruim,” ele continua. “A intenção ou prática por trás de seu uso é que pode ser problemático. Beber demais, com frequência e nunca se dar a chance de vencer seus medos sociais para provar que você está bem sem qualquer substância … então temos um problema. Está na hora de marcar uma sessão comigo.”

Ele reconhece que o alcoolismo é um problema na comunidade LGBTQ porque somos um grupo marginalizado com níveis desproporcionais de vergonha e sentimentos de inadequação por termos crescido em um mundo onde não éramos considerados normais e tínhamos algo errado ou defeituoso em nós.

“Que se foda isso,” disse, “não é nem um pouco verdade, mas internalizamos essas mensagens. Sempre que negamos isso, empurramos a vergonha mais a fundo e precisamos de substâncias para nos ajudar a sermos mais abertos para satisfazer a necessidade humana de se conectar.”

Se você tem dificuldade para socializar em grupos grandes de estranhos a não ser que você tenha bebido uma ou duas cervejas, Dempsey diz que é bom ter em mente que é normal se sentir desconfortável ao redor de muitas pessoas, principalmente pessoas que você não conhece ou não conhece muito bem. “Humanos tem uma aversão natural a qualquer coisa desconhecida,” afirmou.

Dempsey diz ainda que a ansiedade social pode as vezes ter origem na nossa voz interna que diz que não somos bonitos, inteligentes, engraçados ou (qualquer outra coisa) o suficiente. “Apesar de irracionais, a vergonha e os sentimentos de inadequação são medos comuns para todo mundo,” disse.

Dempsey acrescenta que quando você se conscientiza do seu medo, você pode começar a desafiar essa falsa narrativa reescrevendo o script. “Pegue isso que você tenha uma maior consciência de ser irracional e siga em frente mesmo assim,” disse. “Experimente esperar pelo menos 30 minutos antes de pegar um drink. Se você ainda se sentir muito desconfortável, então beba um. Pelo menos você está tentando alguma coisa nova e talvez você se surpreenda com o quão confortável você pode se sentir por conta própria.”

Se você continuar a ter dificuldade em socializar sem o álcool, Dempsey sugere internação, terapia, grupos de apoio, se abrir e ser vulnerável com amigos.

“Quaisquer maneiras que possamos começar a nos conectar com mais profundidade com outros, por mais desconfortável que isso possa ser, é a chave para uma autoimagem positiva e vai diminuir organicamente a necessidade de usar substâncias ou qualquer outra coisa externa para aumentar nossa autoestima e habilidade de ser mais social,” afirmou.

Os Benefícios Sociais da Cerveja

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A Hillcrest Brewing Company, “a primeira cervejaria gay do mundo”; imagem por threebzine.com

Não é por acaso que o começo do que hoje seria o movimento de direitos LGBTQ começou em bares como The Black Cat e The Stonewall Inn. Há tempos os bares gays oferecem um espaço seguro onde as pessoas LGBTQ podem baixar a guarda, experimentar e se conectar com outras pessoas.

Mas bares e cervejarias também oferecem um ponto de encontro em comum e uma ponte para outros bebedores de cerveja e ativistas da comunidade, independente de sexualidade, afirma Chris Daigneau, cervejeiro assistente da Hillcrest Brewery Company, uma fabricante de cerveja de San Diego que se autointitula a “primeira cervejaria gay do mundo.”

O dono da Hillcrest Brewery é gay e a maioria da equipe se identifica como LGBT e eles servem bebidas com nomes com duplo sentido como Crotch Rocket (um tipo de moto que em tradução literal seria ‘Foguete da Virilha’), Banana Hammock (um tipo de cueca que em tradução literal seria ‘Rede de Banana’) e Pearl Necklace (‘Colar de Pérolas’, que também é uma gíria dada ao ato de gozar no peito/pescoço).

Ela está localizada no meio do bairro gay de San Diego — perto do ponto inicial da Marcha da Conscientização do HIV e da Parada LGBT — e trabalha com organizações sociais como o Centro Comunitário LGBT de San Diego, Mama’s Kitchen (uma organização que prepara e entrega comida para pessoas vivendo com o HIV) e a festa angariadora de fundos para o HIV, Red Dress Party.

Todo ano eles criam uma cerveja “Red Ribbon” e lançam no Dia Mundial da Luta Contra o HIV e toda arrecadação é destinada ao Centro de Pesquisa do HIV Scripps.

Shaver, o cervejeiro chefe da Hillcrest Brewery, diz que a visibilidade de cervejeiros e bebedores de cerveja abertamente LGBTQ na comunidade em geral lembra os outros de nossa presença e de nossas contribuições à comunidade, questionando estereótipos de quem somos (e onde estamos).

Em festivais de cerveja que a Hillcrest Brewing participa, Shaver as vezes escuta comentários de pessoas menos tolerantes, “Ah, essa cerveja é boa para uma cerveja gay.”

Apesar de ele ouvir isso com menos frequentaria do que quando ele começou a cervejaria há dois anos e meio, ele afirma, “eu sempre ficava tipo, ‘Isso é errado. É uma cerveja boa para uma cerveja.’ Essa sempre é minha resposta quando alguém fala isso, não importa quem seja.”

Daigneau acrescenta que o aspecto comunitário dos bares não tem tanto a ver com consumir álcool em si — apesar de ele estar contente em ver subgrupos na comunidade LGBTQ, como times esportivos e grupos de couro, beber em sua cervejaria. Na verdade, ele acredita que é o espaço seguro, espírito acolhedor e a possibilidade de conhecer outras pessoas que dão às cervejarias, bares e festivais (como o Oktoberfest) seu apelo positivo à comunidade.

 

Imagem em destaque por izusek via iStock

 

Traduzido por Rafael Lessa.