Está Na Hora De Parar De Procurar Por Uma Cura Para O HIV

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Em meados de 2014, foi divulgada a notícia de que a “Bebê de Mississippi,” a criança que achava-se que tinha se curado do HIV, teve mais uma vez níveis detectáveis de vírus no sangue dela. Isso a faz a segunda criança que se achava que tinha se curado através da intervenção precoce com medicamentos e que no final das contas ainda portava a infecção.

Somente o “Paciente de Berlim” — um paciente de leucemia que recebeu radiação, quimioterapia e um transplante completo de medula óssea de um doador com uma variação genética com resistência ao HIV — aparentemente se “curou funcionalmente” do HIV. Mas enquanto isso, nós gastamos milhões de dólares tentando curar a doença quando o dinheiro poderia ser gasto em outras opções comprovadas de prevenção e tratamento. Então já dá para parar de tentar curar o HIV?

(via NIAID)
(via NIAID)

O HIV é um retrovírus que se especializa em se esconder no nosso DNA e em derrotar curas de curto prazo. O “Bebê de Mississippi” recebeu terapia tripla de antirretrovirais logo após o seu nascimento, quando os médicos detectaram o HIV em seu corpo. Ela continuou a tomar os medicamentos até os 18 meses de vida. Assim que os medicamentos foram suspensos, o HIV se reativou e começou a se replicar e se modificar com alta frequência. E obviamente, apareceu novamente no seu corpo.

Até um dos nossos esforços mais sofisticados — um pequeno experimento feito por médicos em Emory em Atlanta que testou transplantes de medula óssea e radiação em três macacos com HIV símio — não obteve sucesso. Quando as nossas tentativas mais avançadas falham, vale a pena considerar se simplesmente não temos o nível de ciência e compreensão para criar uma cura segura e eficaz.

Como uma comunidade científica, vale a pena usar o dinheiro de pesquisa precioso (e limitado) em procurar por uma cura que talvez nunca se alcance? Cerca de U$ 40 milhões do dinheiro de pesquisa foi dedicado à pesquisa da  “cura” em 2009, o que é uma pequena, mas significante, porção dos U$ 2.8 bilhões do dinheiro federal dado ao National Institute of Health (Instituto Nacional de Saúde) para pesquisas envolvendo o HIV.

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(via Tax Credits)

Em vez de jogar o dinheiro fora por uma cura que talvez nunca venha, a prevenção pode alcançar o mesmo objetivo com o bônus de uma possível erradicação do HIV em uma geração ou duas, assim como a Hilary Clinton sugeriu no plano “AlIDS Free Generation (Geração Sem AIDS) dela — um plano que foca na prevenção e não em uma cura.

Nós temos tratamentos bons, eficazes e relativamente seguros contra o HIV, fazendo uma cura imediata desnecessária a curta prazo. As terapias medicamentosas triplas e quádruplas contidas em pílulas que devem ser tomadas uma vez ao dia podem suprimir o vírus pela vida toda, desde que elas sejam tomadas todos os dias. A medicina moderna transformou o HIV em uma doença crônica semelhante à diabetes ou à herpes, e os pacientes estão vivendo vidas plenas.

Então vamos parar de tentar curar essa doença e começar a focar em impedir que mais alguém a contraia. Com exames melhores, a remoção do estigma através da educação e programas de conscientização pública e fazer com que mais opções de prevenção como o Truvada tenham maior disponibilidade — especialmente àqueles em maior risco, como famílias de baixa renda, pessoas com acesso precário à saúde e populações de alto risco como profissionais do sexo e os moradores de rua — novas infecções podem ser prevenidas.

Impedir a propagação do HIV deve ser o foco, e, dessa forma, uma cura se tornará desnecessária.


Dr. Swales é um médico de família trabalhando no norte da Califórnia, e recentemente um blogueiro que escreve sobre questões de saúde para todos.