Eu Me Submeti A Um Dominador De Podólatras

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O contribuidor do Unicorn Booty, Daniel Mikelonis passou uma noite com um dominador de podólatras profissional. Aqui está o seu relato (com um vídeo dele sendo dominado abaixo).

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O dominador de podólatras — um cara grande, com um e oitenta e pouco de altura com vinte e tantos anos — entra carregando uma sacola plástica com acessórios: uma venda, fita adesiva, um consolo. Minha garganta se fecha involuntariamente enquanto ele fixa a ventosa do dildo em um quadro: as palavras “Aperitivo do Escravo” escritas em cima.

Nós decidimos a palavra de segurança dessa sessão — é “França”.

“Eu nomeio minhas palavras de segurança em referência a países que se humilharam,” ele diz. “Minha outra preferida é Canadá.”

Deixar ele me maltratar com os pés dele não parece tão ruim; minhas preferências sexuais pessoais são bem convencionais. Nós mantemos as coisas leves, engraçadas e informativas: fazendo piadas, constantemente segurando o riso, ele mantém um sorriso caloroso durante a nossa conversa inicial. Ele me conta com confiança profissional sobre as diferentes técnicas que os podólatras acham interessante; minha esperança é que toda essa informação sobre o trabalho dele vá resultar em um vídeo sobre pornô com fetiche em vez de, bem, um vídeo pornô com fetiche de fato.

Antes de nos encontrarmos, nós concordamos em esconder o rosto e mudar a voz dele para proteger a sua identidade e dos seus clientes. É um saco, mas a dominação com pés ou qualquer outra excentricidade praticada entre dois adultos que tenham consentido carrega tanto estigma que o dominador se preocupa em perder o seu trabalho diurno.

Nós começamos a filmar.

Primeiro, eu coloco uma venda e em retrospecto, isso fez a sessão ficar mais fácil. Não ver ele coloca o meu foco nas sensações, e não na pessoa que as estão causando.

Depois, ele diz que chupar o consolo ajudaria “entrar em uma mentalidade de submissão.” De joelhos, eu me arrasto até o “Aperitivo do Escravo” e dou uma leve provada. Quando minhas tentativas de falso boquete não alcançam os altos padrões do dominador, ele me ajuda segurando a parte de trás do meu pescoço e forçando minha mandíbula no pau de poliuretano, enfiando até eu engasgar.

Eu sinto resiliência — parte da mentalidade submissa. É isso? Eu penso. O Taco Bell que eu coloquei na minha boca no almoço me deu mais nojo que esse consolo.

O dominador então descansa seus pés sobre minhas costas,me usado como o seu divã vivo. Ele diz que os clientes dele gostam de ser tratados como móveis. Eles adoram quando ele apoia seus pés e chama amigos, lê um livro, age como se eles não existissem.

foot fetish, dom, sub, bdsm, play, video, gayIsso forma minha última memória clara. Os próximos estranhos vinte minutos passam em um borrão indistinto: Eu desamarro os sapatos dele com meus dentes. O dominador tira os sapatos dele, pressionando os pés dele com meia na minha boca e nariz. Enquanto as minhas narinas se enchem com um cheiro de vinagre enjoativo, eu me concentro em falar alto o bastante para a câmera captar.

Quando subsequentemente eu tiro as meias dele (também com a minha boca), eu acidentalmente mordo o pé dele. Ele me dá um tapa. Eu tento pensar em alguma coisa sarcástica para dizer, mas não consigo.

Então, o distinto som de fita adesivo sendo rasgada preenche o ar. Ele empurra um pedaço sobre a minha boca, cobre meu nariz com uma meia, aperta minhas narinas, conta até dez. Quando eu finalmente tenho permissão para respirar, sinto o cheiro de como se a Famous Footwear tivesse cagado.

Quando eu vou embora e como pizza e bebo cerveja quatro horas depois, eu ainda sinto o gosto e o cheiro daquele maldito perfume — fica em mim o dia todo.

Agora nós chegamos na última técnica, me diz o dominador, e de repente as coisas parecem insuportáveis. Gritar “França!” parecia risível antes, mas ao ouvir que ele quer que eu lamba, beije ou chupe os pés dele, a exaustão me pegou naquele momento e eu sai da mentalidade de submissão na hora.

“Eu realmente não quero fazer isso, cara” eu falo. Ele está se sentindo bonzinho, no entanto: ele me libera dando um beijinho de leve no pé dele. 

Concluir a sessão dá uma sensação parecida de quando está passando o efeito do ácido. Lentamente meu senso de quem eu sou se restabelece, apesar de que eu não me sinto completamente presente no resto do dia.

Enquanto eu edito a filmagem, minha percepção de pés muda. Apesar de eles ainda continuarem sendo apenas outra parte do corpo para mim, o tamanho e peso deles assumem um componente erótico. Ao olhar fixamente para eles enquanto revejo os clipes, eles gradualmente se transformam como se fossem pênis eretos – não é a minha praia, mas eu entendo porque outra pessoa poderia curtir.

Apesar de eu poder passar a minha vida sem experimentar dominação com pés de novo, eu posso pelo menos entender parte do seu apelo. Que estranho que tantas pessoas tenham que esconder essa pequena inclinação sexual (e tantas outras) por medo de serem rotuladas como depravadas, serem demitidas ou ridicularizadas, vivendo em um constante estado de estresse.

Minha personalidade consiste em uma mistura estranha de ansiedade e neuroticismo. Enquanto eu dirigia até o apartamento para a filmagem, eu me preocupava se minha dor de cabeça indicava tumores no cérebro ou se todo mundo no meu trabalho queria que eu fosse demitido. Assim que o dominador começou seu trabalho comigo, no entanto, as preocupações desapareceram. A única coisa em que me concentrava era em passar para o momento seguinte. Foi libertador de certa forma.

Se esse texto fizer uma pessoa não reagir com repulsa quando alguém afirma que eles gostam de algo além de papai-e-mamãe para propósitos de procriação, então ser dominado por uma tarde e ter um consolo enfiado goela abaixo na minha garganta valeu a pena.

Segue abaixo a transcrição da entrevista completa com o dominador. Ela foi levemente resumida e editada para maior clareza.

DANIEL MIKELONIS: Uma coisa em que estou interessado é como você começou nisso. O que fez você querer sair e colocar os seus pés nas pessoas?

DOMINADOR: Tudo começou mais ou menos nessa época no ano passado. Eu vi um documentário na TV, do tipo que parece um show de aberrações dos tempos modernos que se mascara como um documentário informativo.  [Era sobre] um cara com fetiche por pés, e ele pagava para as pessoas irem até a casa dele, e algumas pessoas iam de graça. Ele usavam ele como descanso de pé, e ele mantinha um arquivo com as meias deles, e filmagens dos momentos deles juntos. Eu assisti, e eu acho que provavelmente plantou a semente na minha cabeça. Na época eu não achei que eu ia acabar fazendo isso.

Assim que eu me formei na faculdade e meu trabalho estava me permitindo pagar pelas minhas despesas comuns mas não me deixava tão solto para gastar nos fins de semana como eu queria, eu decidi arrumar um segundo emprego, e eu não queria ir pro Uber.

Então em vez  de dirigir estranhos por aí-

Eu coloco os meus pés em suas bocas.

Como você se sente sobre o que você faz? É só um trabalho como dirigir um Uber, é algo que você gosta, ou é só alguma outra coisa?

Bem, é definitivamente um trabalho, mas um trabalho que eu gosto, o que eu esperaria para a maioria das pessoas, que elas façam um trabalho que elas gostem. Eu gosto de conhecer as pessoas, e eu com certeza tenho mais que apenas uma relação de trabalho com elas, porque eu as conheço. Quando elas vem toda semana ou a cada duas semanas você passa a conhecê-las e um pouco de suas histórias. Mas, no fim das contas ainda é uma relação profissional.

Como você convence esses estranhos que você vai cuidar deles, e demonstra que “Ei, você pode confiar em mim”?

Eu começo tendo uma conversa aberta e honesta por email. Eu faço de uma maneira profissional; eu me certifico que tudo está correto gramaticalmente, pelo menos na maior parte. Eu os convido para me conhecer em uma cafeteria ou algum lugar público para falar sobre quais são os limites deles, se eles se sentem confortáveis em falar sobre isso em um pátio ou algo do tipo, não onde todo mundo esteja. Mas pessoalmente, eu quero conhecer quem eles são também antes de convida-los para a minha casa. É apenas para garantir que isso é algo que eles queiram. [Eles querem] ter certeza que eu não sou um psicopata, e eu gosto de ter certeza que eles não são loucos que vão fazer alguma loucura comigo, ou que eu não vá ser louco para eles, sabe?

Isso é algo que já aconteceu antes, onde alguém fez alguma coisa louca que você ficou tipo “Nossa, eu preciso tirar essa pessoa da minha casa, eu estou desconfortável”?

Não, nunca aconteceu, e graças a Deus.

Então assim que você deixa um cliente confortável o suficiente para ir até a sua casa e passar por uma sessão contigo, o que passa na sua cabeça quando você está conduzindo a sessão e está maltratando eles com os seus pés?

Com certeza, requer uma mudança na mentalidade. Eu não sou desse jeito quanto eu interajo com as pessoas diariamente. Eu tenho que definitivamente entrar em outro modo, senão, se eu tratasse as pessoas desse jeito diariamente eu não teria amigos.

“Esse cara veio na nossa festa ontem à noite e começou a enfiar meias nas bocas das pessoas! O pior convidado da história!”

É, isso não seria muito bom em festas. Com certeza não. Mas funciona muito bem em sessões de dominação com os pés!

Basicamente, eu mudo de mentalidade. Não é sempre algo imediato, eu não começo imediatamente a dominar severamente. Eu gosto que meio que flua naturalmente e vá crescendo, porque se eles quiserem uma sessão de 30 minutos, meio que requer isso de mim [começar com dominação severa]. É um pouco mais estranho. Eu definitivamente prefiro ter pelo menos uma hora com o cliente, desse jeito pode haver uma progressão natural para isso. Parece ser mais uma acumulação de dominação, e eu acho que é mais natural desse jeito também. Se estamos tendo essa conversa franca sobre quais são os seus limites, e qual é a palavra de segurança, e então de repente eu faço o oposto e começo a trata-los muito mal, é um pouco contraditório. Também eles não encaram seriamente, e é mais difícil para eles entrarem na mentalidade de submissão.

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Conforme você encontra um cliente por um número repetido de vezes e você passa a conhecê-los melhor, você acha que a intensidade das sessões aumentam também? Tipo, de início ele ficam tipo, “Me chute um pouco!” e então eles ficam tipo, “Só faça coisas hardcore!”

Bem, depende de cliente para cliente. Com certeza há clientes que acontece isso, e outras vezes há clientes que querem que eu vá com mais calma dessa vez. Ele falam, “Oh, dessa vez eu não to com tanta vontade disso,” ou apenas não ocorre naturalmente daquele jeito. As vezes eles apenas massageiam meus pés e nós temos uma conversa ótima, porque eu não estou no clima de dominação e nem eles naquele dia. É uma base de caso-a-caso e é diferente toda vez.

Então você mantém as coisas centradas no pé, você diz que não há nada tradicionalmente considerado como sexo acontecendo. Não há toques nas genitálias, nada com a bunda, então isso quer dizer que o que você faz é tecnicamente legal, completamente?

Eu fiz uma pesquisa sobre isso e o que eu achei é que parece ser isso. Se você não faz contato com genitálias ou nos ânuses – palavra estranha de se falar.

Anii?

Basicamente isso que é considerado ilegal no nosso estado. Nós não temos esse acesso como trabalhadores eróticos, então eu não me considero um profissional do sexo de fato. Eu me considero mais um profissional erótico, nesse sentido. Então, pelo que eu entendi, sim, isso é legal, mas eu não contatei nenhum advogado ou algo do tipo sobre isso. Mas eu me sinto bem sobre o que eu faço. Eu não acho que seria ilegal, parece ser bem leve para mim.

Então como esse tipo de trabalho afetou a sua própria vida, é algo que você tem que compartimentar e esquecer quando você sai nos fins de semanas para festas ou quando vai para o seu trabalho diurno, ou é algo no qual você é tipo “Ok, isso é parte de quem eu sou o tempo todo”?

Bem, eu definitivamente uso discernimento em pra quem eu revelo isso, por isso que eu estou escondendo minha identidade agora. Quanto aos meus amigos mais próximos, eles sabem que eu faço isso. Eu moro com um amigo, então eu tenho que falar com ele, “Ei, tem um cliente vindo,” e nos planejamos com antecedência como vamos fazer para que de tudo certo porque claro que não vai dar certo se tivermos o meu amigo cozinhando uma lasanha na cozinha. Então nos temos que dar um jeito nisso. Eu compartimento isso até certo ponto, mas eu não rejeito o fato que é isso que eu estou fazendo na minha vida.

Como isso afetou a sua vida no que diz respeito a namoro e sexo? Mudou o jeito que você vê os seus parceiros ou pessoas que você esteja namorando?

Não, acho que não muda isso. Eu acho que a mentalidade que eu já tinha me serviu bem para esse tipo de trabalho, então eu acho que não mudou muita coisa, eu só acho que eu já meio que estava com essa mentalidade.

Mas mudou a minha percepção de pés, honestamente, porque eu perguntava para os meus clientes “O que você acha atraente em pés?” Eu não entendo muito bem por que não é a minha praia, e agora que meio que entrei nesse mundo um pouco, eu comecei a ver o que faz um pé atraente e o que um pé não tem de atraente. Tipo, agora eu sei “Oh, eu quero chupar esses dedos mas eu não iria querer chupar esses dedos.” Então agora eu posso meio que simpatizar mais com o que é considerado atraente nessa comunidade fetichista.