A religião quase me matou: a história de um ex-noviço gay

Aos 14 anos sabia que havia algo estranho e confuso comigo mas achava que Deus iria me livrar. Sempre fui um garoto comunicativo, apegado a coisas engraçadas, me inspirava nos filmes da Disney e mangás, além de outras personagens de desenhos animados que sofriam por serem diferentes. Eu me identificava com os heróis X-men e com os santos da igreja Católica por muitos deles serem diferentes e terem dons especiais.

Desde os meus 11 anos minha família era engajada em uma comunidade católica onde as pessoas carinhosamente me chamavam de padre e isso acabou por me influenciar de forma acreditar que eu pudesse ser religioso. Padre, quem sabe.

Na época, eu cheguei a visitar um padre orientador para quem contei que queria ser religioso e ele me ajudou com mais 11 amigos a fazemos teste vocacional. Nos testes vocacionais, gays nãos tinham chances.

Fiz todos os testes com mais 5 amigos e cheguei no grau de noviciado que era o ano preparatório para vida religiosa já usando hábito. Meu noviciado tirava um ano sabático em reclusão para assumir votos da vida religiosa.

Por volta de 7 meses depois de noviço eu era um homem alegre e solto demais ao ponto de ser corrigido de posturas afeminadas e risos altos, me cobravam que eu tivesse postura de homem. Já no nono mês de noviciado, uma polêmica na parada gay de 2005 sobre Jesus e figuras religiosas me fez cometer atitudes homofóbicas. Sabia que era gay, a essa altura, mas negava para mim mesmo.

No mesmo período alguns bispos europeus queriam exportar vocações e eu era um dos cotados para mudar de pais. O processo seletivo era árduo. Tinha tarefas de limpar chão, cozinhar, capinar, estudar, fazer missões externas nas ruas, levantar paredes e todas as prendas domésticas.

Até que um dos membros da minha turma fugiu por não aguentar a rotina. Foi quando começamos a ter ajuda de psicólogos. Nessa ajuda em particular, a psicóloga me falou que tinha tendência a “homossexualismo”, mas que Deus daria um jeito. Isso me deixou péssimo. Eu fazia jejum e práticas exageradas de devoção para Deus a fim de me livrar disso.

No décimo mês, durante a reunião de profissão de votos, eu pedi prorrogação de mais 1 ano de noviciado. Passaram-se mais 5 meses, já me sentia cansado, em estado de decepção comigo especialmente por sentir desejos por outros homens. Eu quis me matar. Subi numa árvore para me suicidar, já que Deus não me curava.

Quando subi numa árvore, uma folha caindo me lembrou a frase de Jesus que diz: “nem uma folha cai sem a permissão de Deus”. Então chorei e fui descendo da árvore decidido a sair da vida religiosa.

Três meses depois desse episódio de quase suicídio, larguei o noviçado. Ainda tinha contato com todos até um ano pós minha saída, mas já tinha seguido minha vida, estudando gestão de comércio e trabalhando como vendedor de carros.

Já descobri a vida gay pelas comunidades do Orkut e outras redes sociais da época quando conheci um cara que me permiti sair, transar, viver tudo com ele. Foi um aprendizado e uma libertação. Me aceitei gay durante um trabalho de faculdade em que minhas colegas fizeram a brincadeira “verdade ou desafio” perguntando se eu era gay. Elas me deram apoio e carinho na saída do armário.

Na minha família eu sou o único gay e em respeito ao modelo de família tradicional que eles acreditam eu fiz um propósito de não apresentar ou levar namorado nas reuniões ou na casa da minha mãe, embora sonhe em recebe-los na minha casa juntamente com meu namorado.

Para mim e para os namorados que tive, estava tudo bem não poder levá-los até minha família, até porque não moro com eles. Hoje moro perto do meu trabalho, sou barbeiro e sou muito feliz. Mais da metade dos meus clientes são gays e temos um convívio que é muito especial para mim: não colocamos nossa orientação em primeiro plano, mas nossa humanidade. Sem rótulos. Livres.

 

Jeff Oliveira, 32 anos, dividiu sua história com o Hornet. Tem uma história para contar? Então deixa contato neste post que falaremos com você.