Faithless 2.0 Foi Uma Vitória Bem Merecida Para os Pioneiros da Música Dance

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Faithless era um adorado trio britânico de música Dance que consistia de vocalista/rapper, Maxi Jazz; compositor musical, Sister Bliss; e produtor, Rollo Armstrong. Surfando na onde do Dance que passou pela Europa nos anos 90, Faithless trouxe o “stadium house” para o público com suas obras-primas eletrônicas épicas. Com o primeiro single, “Salva Mea”, eles imediatamente se diferenciaram dos projetos de dance “pop” como Spice Girls e Aqua. A jornada musical épica, de onze minutos, apresentava a irmão de Rollo (e futuro pássaro da música britânica), Dido, no vocal assombroso de abertura, e serviu de aviso de que Faithless vinha para ficar.

Mas foi a canção seguinte, “Insomnia”, que realmente colocou Faithless no mapa. A faixa grandemente instrumental tinha um ar sombrio, quase sinistro, que ressoava além dos participantes de raves, impulsionando a canção para a posição #3 no Reino Unido.

Tratada como um clássico do dance (leitores da Mixmag votaram nela como a 5ª melhor de todos os tempos numa pesquisa de 2013), “Insomnia” permitiu que Faithless continuasse a produzir ótimas músicas de dance através dos anos 90 e 2000. Enquanto eles eram relegados nas paradas de dance nesse lado do Atlântico, sua infusão de trip-hop e trance ao longo de seis álbuns de estúdio e uma coletânea de maiores sucessos os tornou um dos mais venerados projetos na Grã-Bretanha. A banda se separou em 2011, tendo sucedido além de seus sonhos mais loucos.

Contudo, com 2015 marcando seu vigésimo aniversário, Faithless decidiu comemorar se reunindo novamente para uma série de shows no final do ano. Celebrando mais ainda o marco, eles montaram um álbum de metade-remixes/metade-maiores-sucessos, intitulado de Faithless 2.0, como um agradecimento aos seus fãs. Para os remixes, a banda reuniu os maiores titãs da música dance, incluindo Avicii, Armin van Buuren, Eric Prydz, Tiesto, e Above & Beyond; o calibre do talento à disposição é um testamento monumental ao status lendário de Faithless no gênero. Consequentemente, Faithless 2.0 deveria ser um dos grandes álbuns de dance a serem vendidos em 2015.

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Celebrating 20 years in the biz: Faithless 2.0 features remixes by some of dance music’s best

Infelizmente, enquanto o conceito para Faithless 2.0 é ao mesmo tempo promissor e fascinante, o álbum desaponta. Bizarramente, isso não se dá pela qualidade dos remixes. Na verdade, quase todos eles são no mínimo decentes; ao invés disso, o álbum frustra porque o resultado é menor do que a soma das partes. E isso se dá por duas razões:

1. As versões originais do Faithless já são perfeitas.

O melhor exemplo disso é o sucesso de 2001 deles, “We Come 1”. A canção original já era uma música perfeita para encher pistas, batendo com uma urgência e significado que se distinguia das musiquinhas dance da época.

Armin van Buuren teve a não invejável tarefa de remixar a canção para Faithless 2.0, e enquanto sua interpretação trance ainda permite que a canção brilhe, suas adições não capturam a canção em uma perspectiva nova ou notável.

Além disso, as canções mais familiares do Faithless se tornaram hinos nobres do dance, significando que qualquer alteração subsequente ao som deles é o mesmo que sacrilégio. Avicii descobriu isso da forma difícil quando seu remix do eterno favorito, “Insomnia”, foi recebido com desdém. Seu remix era adequado, mas como não era uma cópia exatamente igual, Avicii foi queimado na fogueira por heresia no instante em que sua versão foi lançada. Nesse sentido, Faithless 2.0 é uma infeliz vítima do sucesso de longa data da banda.

2. Os talentos renomados não têm tanto sucesso.

Dado os nomes de sucesso envolvidos, os remixes deveriam ter sido brilhantes. Mas muito frequentemente, os DJs mais conhecidos adicionam surpreendentemente pouco à versão: Tiesto adicionou uma camada mais grave à “God is a DJ”, mas os resultados são quase imperceptíveis do original. Compare-os aqui:

A canção é uma das mais reconhecíveis do Faithless, e dada a história de remixes de sucesso do Tiesto de todo mundo de Britney Spears a Coldplay, sua contribuição a esse álbum é especialmente desanimadora em sua inadequação. De forma similar, Eric Prydz amplia os elementos mais sombrios de “Not Going Home”, permitindo que a canção descesse mais ainda na depravação de uma pista de dança ao longo da noite… mas faltou originalidade, fazendo o esforço parecer vazio, dado o pedigree de mais de uma década de Prydz. Os grandes nomes do dance envolvidos nesse projeto poderiam ter transformado esse álbum em um enorme sucesso; ao invés disso, suas contribuições soaram como ecos vazios.

Talvez com surpresa, os nomes menos conhecidos fizeram as afirmações mais corajosas no Faithless 2.0. Purple Disco Machine está apenas começando a fazer seu nome como DJ, mas seu remix de “Miss U Less, See U More” se distingue do resto ao realçar as qualidades mais sombrias e assombrosas — os vocais de apoio em camadas e instrumentação repetitiva — enquanto mantém a sensação que lembra jazz da versão original. Purple Disco Machine fez o que Avicii e Tiesto não conseguiram: Seu remix adiciona algo novo a uma canção do Faithless, enquanto ainda oferece uma homenagem respeitosa à versão original.

Ainda mais corajosos são os retrabalhos das músicas lentas do Faithless: ambiciosos, Until the Ribbon Breaks, transformam a canção dos sonhos, “Don’t Leave”, em um lamento estranho e desarticulado. Enquanto a original era uma linda carta de amor, o remix é uma marcha de funeral para um louco. Similarmente, o novato Autograf retrabalha a canção dos drogados depois da festa, “Drifting Away”, em uma maravilha no piano. Pelo fato desses remixes desviarem tanto do modelo dos originais, os resultados podem soar irritantes — mas esses nossos projetos devem ser aplaudidos por tentar trazer algo novo ao som familiar do Faithless.

É importante tomar nota de dois remixes superiores: o primeiro é a transformação do “Salva Mea”, do Above & Beyond,. Ao reduzir as camadas mais profundas da versão original em uma batida clínica e estéril, eles conseguiram expor um elemento diferente da canção; quando misturado com as melhores partes da original — incluindo aquela subida e queda poderosa! — o remix resultante funciona como uma maravilha.

O outro remix superior foi do Axwell com “Music Matters”. A versão original é dos sonhos, uma canção lenta vivaz que é um dos singles mais fracos do Faithless, mas o Axwell fez sua mágica, transformando a canção em uma maravilha do house que explode com um êxtase eufórico; sua versão é a definitiva. Entretanto, uma vez que seu remix foi disponibilizado em 2006, o remix de Axwell deveria estar na metade dos maiores sucessos do álbum, não na metade dos remixes.

Falando disso, a segunda metade de Faithless 2.0 é a de maiores sucessos mencionada anteriormente. Embora todas as versões originais dessa metade brilhem com ouro, a lista de faixas entre os remixes os maiores sucessos curiosamente não são relacionadas, com quatro remixes e cinco versões originais sem uma correspondência — outra peculiaridade estranha no já confuso álbum.

No fim das contas, essas falhas não significam nada, uma vez que Faithless 2.0 fez exatamente o que deveria fazer: atingiu a posição número um no Reino Unido e aumentou o interesse em seus futuros shows. Consequentemente, se o álbum puder se separar da expectativa não realística, ele pode ser curtido pelo que realmente é: a volta da vitória de uma banda comemorando vinte maravilhosos anos no ramo da música. Faithless 2.0 não adiciona nada de novo ao seu catálogo, mas é um lembrete perfeito do quão grandiosos eles foram.

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