Flashback Do Eurovision: Quando Um Gênio Malvado Reinventou O Eurovision E Destruiu A Inocência

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Apesar do Eurovision Song Contest ter começado oficialmente em 1956, o Eurovision realmente começou em 1965, quando France Gall ganhou por Luxemburgo cantando uma música “yé-yé” (o nome do gênero para o pop francês inspirado pela música beat britânica) escrita por Serge Gainsbourg.

Ela está desafinada. Mas isso não importa. O estilo yé-yé super anos 60 só meio que funciona com o arranjo orquestral. Mas quem se importa? Quando você assiste essa performance, juro por Deus que você está assistindo ao nascimento do Eurovision.

Antes da vitória da Gall em 1965, aqui está como era o Eurovision (abaixo)…

Todos os ganhadores do Eurovision anteriores a “Poupée de cire, poupée de son eram baladas pop tradicionais lentas. Alguns dos jurados em 65 — incluindo os jurados de Luxemburgo!— estavam definitivamente escandalizados pela tentativa da Gall e do Gainsbourg de trazer a música pop contemporânea da epóca para o concurso. Até membros da orquestra estavam abertamente duvidosos sobre o que estavam tocando. Mas depois da vitória de Gall, o estilo balada lenta serena se foi, substituído pela loucura do pop agitado.

Incluindo essa coisa horrorosa saída da Inglaterra em 1967 (abaixo), que inaugurou a honrosa tradição do Eurovision de descaradamente copiar vencedores anteriores.

Um coisa sobre “Poupée de cire, poupée de son” que a separa de suas imitações é que a letra (brilhante) de Gainsbourg contém trocadilhos elaborados que não são totalmente traduzíveis. Por exemplo, o título da música poderia significar “boneca de cera, boneca de pano” — mas assim como os falantes de Inglês contemporâneo que colecionam discos de vinis as vezes chamam os discos de “wax” (cera), “cire” poderia ser usado para se referir aos discos. E apesar de “poupée de son” normalmente significar “boneca de pano”, também pode ser traduzido como “boneca do com”.

Então o que vemos em “Poupée de cire, poupée de son” é France Gall em frente a um cenário que envolve a cabeça dela com o que parece raios solares, cantando uma música sobre como, debaixo do sol brilhante do seu próprio cabelo loiro, ela é só uma marionete pop indefesa sem saber dando voz a palavras escritas por outros, lançando discos de vinis cheios de músicas que ela não entende, a música dela é um espelho quebrado no qual todo mundo pode vê-la mas ela não consegue ver ela mesma.

A combinação das letras do Gainsbourg e a performance da Gall são uma denúncia brilhante do que o sistema pop faz com os pop stars — mas também é um exemplo disso, assim como a obra do Quentin Tarantino simultaneamente condena e recapitula a ultra violência sadista de Hollywood.

Depois de “Poupée de cire, poupée de son”, Gainsbourg se dedicou a descobrir o quão longe exatamente poderia ir antes da Gall percebesse o duplo sentido nas suas letras. Abaixo está o último grande sucesso que a Gall gravou composta por Gainsbourg:

Apesar de ser difícil de acreditar, Gall aparentemente não tinha ideia sobre o que “Les sucettes” (ou “Os Pirulitos”) realmente falava. Olha, a maioria das suas músicas que não foram escritas por Gainsbourg até este momento eram tematicamente simples e irresistivelmente infantis, incluindo algumas músicas que realmente eram infantis. E então, sem saber da Gainsbourgosidade… do Gainsbourg… ela realmente pensou que “Les sucettes” era apenas outra música simples, fofa de criança sobre amar pirulitos.

Aqui está um pedaço de uma entrevista em 1966 com Gainsbourg e Gall onde ele pede para ela explicar “Les sucettes”, porém não corrige a interpretação ingênua dela.

Nota: Você vai se sentir sujo depois de assistir isso. E não é no bom sentido.

Quando estava em turnê, logo após o lançamento de “Les sucettes”, alguns fãs explicaram para Gall o que ela na verdade estava cantando. Depois de ter descoberto, ela se trancou em casa por meses.

Por causa da sua nova reputação, a venda dos seus discos, especialmente as dos seus álbuns infantis, sofreram por anos após. Ela parou de cantar “Poupée de cire, poupée de son nos shows, e no geral, até hoje, ela se recusa a falar em público sobre o Eurovision, Gainsbourg, ou o início de sua carreira.

Se você precisar de um tira-gosto depois de assistir Serge Gainsbourg humilhar elaboradamente uma adolescente sem motivos para provar sua inteligência, você poderia assistir os participantes estonianos do Eurovision, Winny Puhh, tocarem um banjo elétrico com tanta vontade que a gravidade para de funcionar. Mas considere isso — se não fosse por “Poupée de cire, poupée de son, essa música poderia ter sido uma balanda lenta. Sem roupas de luta livre, sem máscaras de lobismem, sem bateria antigravidade. Só porcaria pop orquestral brega.