A História Louca por Trás de Priscila, a Rainha do Deserto

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Era o filmeco improvável que ninguém acreditava no início, e agora é um ícone do cinema drag. Como Priscila, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert) foi feito?

Quase não rolou. Os cineastas lutaram desesperadamente em 1991 para conseguir financiamento, tentando vender o filme por todo Festival de Cinema de Cannes. Ninguém dava ouvidos a eles até que encontraram um ouvido compreensivo na PolyGram, em parte por causa do orçamento baixíssimo: apenas 2,7 milhões de dólares australianos — ou cerca de U$ 2,1 milhões.

Os produtores receberam um corte enorme no pagamento para que o filme fosse feito, e muitos da equipe receberam um pagamento mínimo até que o filme pudesse recuperar seu investimento. Considerando que eles tinham poucos recursos, os cineastas foram bem audaciosos com o casting: Primeiro eles abordaram o ator lendário Tony Curtis, que gostou do script mas não estava disponível. John Cleese estava disponível mas não gostou do script — o que é uma pena, porque a presença dele daria uma outra cara fascinante. Tim Curry também foi considerado.

Rupert Everett foi considerado para interpretar Tick, e Jason Donovan para Adam. Mas os dois atores tinham uma química horrível, tanto na câmera quanto fora, e foram dispensados. (Donovan depois interpretou Tick na versão para os palcos.)

Ofereceram o papel para Colin Firth, mas foi o Hugo Weaving que acabou fazendo. Hugo Weaving estava fazendo uma telenovela australiana e entrou para o projeto de última hora.

O elenco se entrosou imediatamente quando o diretor Stephan Elliott levou os três para sair montados de drag. Terence Stamp flertou com mulheres, Guy Pearce foi grosseiro com todo mundo e Hugo Weaving desmaiou de bêbado — foi um reflexo perfeito dos personagens deles na telona.

Quando chegou a hora de gravar, a equipe trabalhava em horários exaustivos que levavam eles por todo o país. A produção, que era reduzida, as vezes os deixava com muito pouco espaço no ônibus, então em muitas cenas os membros da equipe técnica estão simplesmente escondidos debaixo de pilhas de roupas.

Os produtores esperavam filmar uma cena emocionante na Ayers Rock, mas as diversas organizações que cuidam do monumento geológico desaprovaram argumentando que o conteúdo do filme seria ofensivo para as culturas indígenas. A locação teve que ser mudada para o King’s Canyon.

Era bem difícil a possibilidade do filme ser um sucesso — um monte de drag queens nos desertos australianos? Sem condições. E ainda sim a força das performances, da música, e as roupas contribuíram para um grande público inicial. O lançamento comercial inicialmente foi pequeno, mas conforme foi se ampliando, o filme rapidamente recuperou seu investimento inicial em dez vezes.

Hoje tem uma reputação cultural duradoura — apesar do close errado da representação bizarramente sexista e racista de um estereótipo asiático. Os cineastas defendem sem muito entusiasmo a personagem Cynthia, que tira vantagem de um dos protagonistas e faz uma performance louca e vulgar.

Porém o filme continua sendo um dos filmes queers mais amados, abraçado tanto pelo público gay quanto pelo hétero. Comentadores culturais dão crédito ao filme por trazer os heterossexuais para o mundo de personagens queer de uma maneira que acelerou a aceitação dos LGBTs — nada mal para um filme australiano peculiar de baixo orçamento sobre drag queens.