Documentário da Netflix sobre Marsha P. Johnson de Stonewall é acusado de plágio

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Na última sexta, a Netflix lançou The Death and Life of Marsha P. Johnson, um documentário sobre a mulher que teria atirado o primeiro tijolo na Rebelião de Stonewall. Nesse final de semana, no entanto, a cineasta Reina Gossett acusou o diretor de Death and Life David France de roubar não só sua ideia como sua pesquisa.

Em um post no Instagram no sábado, Gossett escreveu o seguinte, que editamos para ficar mais claro:

Essa semana enquanto estou pegando dinheiro emprestado para pagar o aluguel, David France está lançando seu negócio multimilionário com a Netflix sobre a Marsha P. Johnson. Eu ainda estou meio perdida tentando não ligar e chocada como esse filme foi feito e rende tanto dinheiro com as nossas vidas e ideias.

David teve sua inspiração para fazer esse filme a partir de um vídeo para um pedido de concessão que @sashawortzel & eu fizemos e mandamos para a Kalamazoo/Arcus Foundation Social Justice Center enquanto ele fazia uma visita. Ele falou para as pessoas que trabalhavam lá — eu não estou brincando — que era ele que devia fazer esse filme. [Ele] recebeu financiamento da Sundance/Arcus usando minha linguagem e pesquisa sobre a STAR. [Ele] fez o Vimeo remover meu vídeo do discurso crítico “é melhor vocês se acalmarem” da Sylvia, roubou décadas do meu arquivo de pesquisas que eu sofri violência para conseguir.

[Ele então] fez sua equipe ligar para a Sasha no trabalho para pegar nossos contatos e contratou a nossa consultora do nosso filme da Marsha, Kimberly Reed, para ser sua produtora. ACREDITE?TEM?MUITO?MAIS?.

Esse tipo de extração/escavação da vida negra, vida deficiente, vida pobre, vida trans é tão antiga e tão profundamente conectada com a violência que a Marsha teve que lidar por toda sua vida.

Então eu sinto tanta raiva e pesar por tudo isso & a STAR deve ter um plano bem sério para passar por muitas pessoas — e claramente por qualquer meio necessário — para espalhar sua mensagem. Então hoje eu estou canalizando energia de sacerdotisa para me acalmar porque estou assim ???.

#deepshare #realtruth this week while I'm borrowing money to pay rent, david france is releasing his multimillion dollar netflix deal on marsha p johnson. i'm still lost in the music trying to #pay_it_no_mind and reeling on how this movie came to be and make so much $ off of our lives and ideas. david got inspired to make this film from a grant application video that @sashawortzel & I made and sent to Kalamazoo/Arcus Foundation social justice center while he was visiting. He told the people who worked there -i shit you not- that he should be the one to do this film, got a grant from Sundance/Arcus using my language and research about STAR, got Vimeo to remove my video of Sylvia's critical "y'all better quiet down" speech, ripped off decades of my archival research that i experienced so much violence to get, had his staff call Sasha up at work to get our contacts then hired my and Sasha's *ADVISOR* to our Marsha film Kimberly Reed to be his producer. And that's just the shit I have the spoons to name. TRUST?THERE'S?SO?MUCH ?MORE?. This kind of extraction/excavation of black life, disabled life, poor life, trans life is so old and so deeply connected to the violence Marsha had to deal with throughout her life. So I feel so much rage and grief over all of this & STAR must have some serious level plan on moving through many—and clearly by any means necessary—to get the message out… So tonight I'm channeling high priestess energy to show me the honey throne cuz this storm queen is ???

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A ativista transgênera Janet Mock escreveu um textão no Twitter confirmando as alegações de Gossett:

Reina Gossett é uma mulher trans negra que reintroduziu a nossa [geração] para nós mesmas expondo/recentralizando mulheres trans não-brancas revolucionárias. Os arquivos digitais dela das percursoras do movimento Marsha P. Johnson & Sylvia Rivera são essenciais para se entender suas contribuições.

Ela pesquisou/arquivou/digitalizou conteúdo inacessível por décadas. Ela entrevistou os colegas da Marsha & Sylvia. Ela fez esse trabalho sem receber. 

O trabalho de uma mulher trans negra sobre uma mulher trans negra foi usado para fazer um filme por um homem cis branco com auxílio dos milhões da Netflix. 

Enquanto isso Reina está pegando dinheiro emprestado para pagar o aluguel enquanto os espectadores do mundo todo estão assistindo um filme baseado no seu trabalho sem remuneração & sem créditos. Não está certo. 

David France respondeu a Janet Mock:

Muitas pessoas, no entanto, chamaram atenção para o privilégio de France e questionaram se ele era a pessoa certa para contar essa história:

France, que também dirigiu How to Survive a Plague, que foi indicado ao Oscar sobre a crise da AIDS, também escreveu um textão:

A statement from David France, director and producer of "The Death and Life of Marsha P. Johnson"In 1992, the year…

Posted by The Death and Life of Marsha P. Johnson on Sunday, October 8, 2017

No último parágrafo da declaração do France, ele encoraja as pessoas a financiarem o filme de Gossett sobre a Johnson, Happy Birthday MarshaHappy Birthday Marsha tem a Mya Taylor de Tangerine estrelando no papel principal.

Apesar de não parecer que Gossett tenha respondido à declaração de France — e a Netflix disse que não tem nada a comentar — Mock não aceitou sua explicação:

“‘Apoiar completamente’ é uma ação, não uma intenção/pensamento. Apoio é dar espaço para outros, usando seu acesso/privilégio para produzir o trabalho da Reina”

 

Traduzido por Rafael Lessa.

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