Meu Daltonismo e os Super Óculos de Sol Que Poderiam Corrigi-lo

This post is also available in: English

A empresa californiana de tecnologia EnChroma criou óculos de sol especial que permitem que pessoas daltônicas vejam um espectro de cores completo pela primeira vez. O editor do Unicorn Booty, Devin Bannon, decidiu dar sua opinião sobre seu próprio daltonismo e no que os óculos da EnChroma poderiam fazer por ele.


Eu tinha quatro anos de idade na primeira que encontrei um “problema de cor”. Minha professora do primário nos deu uma imagem de um barco no oceano, e quando era hora de colorir a água, eu peguei o lápis roxo, e minha professora me repreendeu, “Está errado, Devin. O oceano é azul, e não roxo”.

Eu ainda me lembro de pensar, “Mas essa cor parece certa pra mim”.

Rainbow2_-_NOAA
Antes do azul existir, o mar era conhecida como “vinho-escuro”.

Minha versão de quatro anos não sabia como processar essa informação, mas eu lembro vividamente de me sentir confuso, envergonhado, e alheio; uma sensação que se tornaria ah-familiar-demais ao longo dos anos. E uma hora eu descobri, como oito por cento dos homens e 0,4 por cento das mulheres, que eu sou daltônico.

Assim como muitas pessoas que se encontram em algum lugar do espectro da deficiência de cor, eu me diverti com as recentes conversas culturais virais sobre cores, especialmente sobre “o vestido” — eu não fiquei de nenhum lado. Aos meus olhos, não era nem branco/dourado, nem preto/azul — era azul/dourado, obviamente.

Eu tinha sete anos quando entendi o que estava acontecendo. Depois de um ou dois anos como um dos melhores da sala em matemática, minhas notas despencaram de repente. Minha mãe se sentou comigo, tentando entender onde eu estava errando. Nós estávamos aprendendo frações e porcentagens, usando uma figura com 100 carros, todos de cores diferentes. Lutando contra as lágrimas, eu refiz o teste em casa com minha mãe, tentando entender. Quando ela me pediu para contar o número de carros verdes, eu contei todos eles… mas eu incluí os carros vermelhos também.

There might be a number here. I wouldn't know.
There might be a number here. I wouldn’t know.

Vermelho-verde é a variedade de deficiência de cor mais suave e comum. Meu avô também era assim. Ele foi a única outra pessoa daltônica que eu conheci.

E, antes que você pergunte, NÃO. Isso não quer dizer que eu não consiga distinguir entre vermelho e verde… quase.

Assim como muitas pessoas do vermelho-verde, eu geralmente me confundo com cores que contêm vermelho ou verde. Como meu primeiro mal-entendido com a água do oceano, às vezes eu vejo roxo como azul, ou verde como marrom. Agora eu já me acostumei com isso. Passei por minhas humilhações, como todos os daltônicos passam, fazendo observações que faziam os outros rirem ou coçarem a cabeça, mas depois de um tempo, eu me acostumei.

Como você pode imaginar, eu fiquei fascinado ao ouvir que cientistas desenvolveram óculos que permitem que pessoas daltônicas vejam uma versão maior do espectro de cores pela primeira vez.

Originalmente desenvolvido por cirurgiões para melhorar suas interações com lasers, esses óculos especiais de policarbonato criados por uma empresa chamada EnChroma em Berkeley parece ter uma incrível taxa de 80 por cento de sucesso ao permitir que usuários vejam uma variedade de tonalidades antes invisível aos seus olhos.

Não saberemos o efeito de larga escala desses óculos até que eles tenham sido disponibilizados publicamente para estudos em alguns anos. Os desenvolvedores esperam que os óculos possam ajudar pessoas daltônicas em um nível significativo em muitas áreas, desde cozinhar até operar máquinas, e levar a um aumento nas oportunidades de trabalhos aos usuários.

Eles esperam fornecer os óculos a crianças daltônicas. Se a deficiência de cor for detectada e tratada o quanto antes, esses óculos poderão ajudar crianças daltônicas a evitar os desafios de serem tradadas diferentemente por professores e acabarem caindo na categoria problemática de ter uma “deficiência de aprendizado”.

Para aquelas pessoas não-daltônicas por aí que não conseguem entender como é ser daltônico, vamos tirar alguns mal-entendidos fora do caminho.

  1. Não, não é como ser um cachorro. Para a maioria de nós, de qualquer forma. Não é uma escala de cinza. Alguns “grupos” de cores são apenas indistinguíveis.
  2. Não, não estamos interessados em “provar”. Vá se foder.
  3. A segunda reação mais irritante que vemos com frequência é, “Então que cor é essa?” Não funciona desse jeito, gente. O cérebro entenda uma cor no contexto. A razão pela qual testes de daltonismo são um monte de pontos. Olhando uma grande imagem com apenas uma cor, é provável que uma pessoa com deficiência de cor possa vê-la corretamente. Quando você tem uma imagem com várias cores diferentes próximas umas das outras, no entanto — como meu teste de matemática com 100 carros —, é aí que você começa se enganar.
  4. Sim, nós sabemos dirigir perfeitamente bem. Mesmo se as cores do semáforo não forem tão brilhantes quanto possível, elas também são organizadas verticalmente (com “pare” no topo e “siga” embaixo).
  5. Para quase todas as pessoas daltônicas, isso não afeta o dia-a-dia de qualquer forma.

Então qual foi o efeito disso em pessoas como eu? Em uma palavra: desânimo.

Judy Garland
Dando à frase “amiga de Dorothy” um sentido completamente diferente.

Apesar de todas essas dificuldades, na verdade eu sempre me senti como se tivesse uma aptidão para cores. Eu tenho paixão por design. Com uma par de olhos diferentes, eu poderia ter me tornado um designer gráfico. Eu considero minha “sensibilidade” e gosto visual minhas habilidades mais fortes. Mas a ideia de cometer um grande erro e não poder vê-lo, ou de entregar um projeto com erros gritantes… é vergonhosa! Essas coisas trazem um nível de preocupação que pode levar pessoas daltônicas como eu a se desviar de carreiras que são visuais por natureza.

Agora, graças à ciência, por belos US$ 325 a US$ 450, tudo isso pode mudar.

Como eu disse antes… Não é como se eu visse em escala de cinza, mas quando eu penso em colocar óculos que me permitam ver o mundo como a maioria das pessoas vê, com mais cores do que eu jamais conheci, eu não consigo deixar de imaginar Dorothy no seu primeiro em Oz. Eu não tenho ideia do que esperar.

Enquanto isso, quando as pessoas perguntarem, ficarei feliz em lembrá-las…

Não é totalmente correto dizer que eu não vejo cores. Na realidade, ninguém vê, porque falando tecnicamente, a cor nem mesmo existe.

Portanto, até o dia em que eu provar esses óculos mágicos…

Vou desenhar meus oceanos roxos.

Comments are closed.