O Que As Pessoas Não Percebem Sobre Ser Invisivelmente Gay Ou Deficiente….

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Quando você tem uma necessidade especial que não requer que você use algum aparelho de assistência como cadeiras de rodas ou muletas, você é essencialmente invisível. Dor crônica, doença mental, diabetes; esses são apenas alguns poucos exemplos de deficiências invisíveis. Curiosamente, deficiências invisíveis tem muitas questões em comum com o fato de ser LGBT.

Como as pessoas não conseguem dizer o que você é à primeira vista, elas são mais propensas a mostrar as suas ignorâncias, fazendo declarações insensíveis e supondo coisas que não são verdadeiras. Abaixo estão as cinco suposições mais comuns que as pessoas fazem sobre pessoas com deficiências invisíveis e pessoas gays, e o que fazem delas tão ofensivas.

“Você não parece com o que eu esperaria!”

Pessoas com deficiências parecem na maior parte com todos os diferentes tipos de pessoas, e pessoas gays parecem na maior parte com todos os diferentes tipos de pessoas também. A ideia de que alguém possa sempre identificar uma mulher trans é errada, porque mesmo que você ache que tenha percebido todas as mulheres trans que você tenha visto, você tem uma preconcepção distorcida de como uma mulher trans parece para que você possa basear a sua identificação.

Em defesa dos deficientes, há mais razões para eles usarem uma vaga no estacionamento exclusiva para deficientes do que apenas estar em uma cadeira de rodas. Similarmente, apesar da suposição comum de que apenas crianças tem autismo, tem muitas pessoas autistas que não são crianças.

(image via Christian Doelz)
(imagem via Christian Doelz)

Todos os tipos de pessoas LGBT e deficientes enfrentam estereótipos, mas o grau depende de quanto você se encaixa no estereótipo. Por exemplo, uma lésbica masculina recebe uma quantidade diferente de “efeito colateral” de uma lésbica feminina porque a sociedade convencional supõe que todas as lésbicas são masculinas e você não pode, possivelmente, ser uma lésbica feminina. A causa? A sociedade convencional compreende a atração por mulheres como “uma coisa masculina”; assim, de acordo com esses padrões, as lésbicas têm que ser masculinas.

“A sua dificuldade não é real!”

Grupos invisíveis frequentemente têm as suas necessidades e causas invisibilizadas também por pessoas que as declaram como ilegítimas ou irreais. As mulheres trans negras são assassinadas em um índice surpreendente pelo crime de existirem, e mesmo assim isso é superado pelo casamento gay como a questão LGBT com mais visibilidade na mídia.

Há uma razão para a escassez de atenção dada às questões trans, bi, genderqueer e neuroqueer (isso é, questões de pessoas cujos cérebros e habilidades cognitivas diferem das “normas” médicas). É não é somente atribuível à invisibilidade.  

Algumas pessoas acham que não ser visível como gay ou deficiente na verdade dá a essa pessoa um certo privilégio. Eles insistirão, por exemplo, que pessoas bissexuais não tem dificuldades assim como os héteros porque bissexuais tem “privilégios heterossexuais”. Como pessoas bissexuais podem aparentar ser héteros, de acordo com eles, os bissexuais recebem os mesmos benefícios que as pessoas heterossexuais recebem como aceitação social pelo que elas são, a habilidade de ser aberto sobre os seus relacionamentos e são livres de preconceito no ambiente de trabalho. Isso leva a algumas pessoas a acusarem pessoas bissexuais de serem homofóbicas por natureza — como eles recebem os mesmos privilégios dos héteros, eles também devem fazer parte do mesmo sistema opressor que favorece os héteros.

Assim, a verdadeira luta enfrentada por grupos invisíveis é deixada de lado para que se foque em como a sua mera existência dificulta as coisas para outros rostos mais visíveis (algo que eu discuti no meu artigo sobre “feminismo branco”). No passado, isso foi levado ao extremo de a Campanha de Direitos Humanos mandar tirar as bandeiras trans de um protesto do casamento gay porque, supostamente, distraia da questão mais importante.

No que diz respeito às necessidades especiais, há ainda o conceito de hierarquia de deficiências, que basicamente diz que algumas deficiências são mais válidas e aceitáveis do que outras, com pessoas como veteranos militares no topo e pessoas com doenças mentais na base. Acaba classificando quem tem a dificuldade mais socialmente aceitável e assim a “mais legítima”.

A ironia é que quanto mais você é marginalizado na comunidade LGBT ou quanto mais inferior você for na hierarquia da deficiência, mais dificuldades você provavelmente vai enfrentar por não ter um rosto público visível lutando pelos seus direitos. É uma triste ironia, mas infelizmente muitas pessoas não veem que ouvir que suas dificuldades não são reais é uma dificuldade em si.

black and white, ghost, photo
(Imagem via Nick Kenrick)

“Todo mundo tem isso hoje em dia”

“Todo mundo tem déficit de atenção.” “Todo mundo é bissexual.” Você não sabia disso?

É um estereótipo bem comum que alguns tipos de singularidades sexuais e de gênero e deficiências são incrivelmente comuns. Acontece por causa de concepções errôneas do que certas deficiências ocasionam, como por exemplo a ideia de que o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) só quer dizer ser um pouco mais agitado (como a maioria das crianças são) ou que qualquer um poderia namorar com uma pessoa de qualquer gênero se eles realmente tentassem.

Bem, essas coisas não são verdade. Se todo mundo realmente tivesse TDAH e todo mundo realmente fosse bissexual, nós não precisaríamos de nomes para essas coisas. Seria chamado apenas de normal e a gente seguiria com as nossas vidas.

Além de não ser verdade, também prepara o campo para mal-entendidos piores. Afinal, qual a necessidade de Orgulho Bi se todo mundo é bissexual? Qual a necessidade de tomar remédio para TDAH se todo mundo tem TDAH? Quando as pessoas afirmam que todo mundo enfrenta um determinado problema, elas invalidam as experiências daqueles que realmente o enfrenta. Pode parecer como uma coisa pequena, mas pode realmente ofender quando as pessoas começam a ver o seu orgulho ou as suas necessidades médicas pessoais como ilegítimos.

“É fácil para você porque as pessoas não conseguem perceber.”

Ah, o privilégio de passar despercebido. Na verdade, de certo modo, é bom poder sair e não ter pessoas te falando que genderqueers são aberrações ou que autismo iria acabar se as pessoas parassem de tomar vacinas contra doenças letais. As pessoas talvez não diriam essas coisas se soubessem que você é um genderqueer autista, entretanto, talvez elas falem essas coisas ao seu redor porque elas acham que você parece “normal” para elas.

Daí o lado ruim do privilégio de passar despercebido. Quando você é deficiente mas pode passar despercebido, você pode não ter serviços como anotadores na escola para pessoas com TDAH ou lugares para se sentar no trabalho se você não consegue ficar em pé por muito tempo. Lutar por esses serviços frequentemente significa que você precisa se expor para consegui-los. É um beco sem saída que pode levar à discriminação nos lugares que você se expõe.

Quando você é bissexual mas acham que você é hétero porque você está namorando uma pessoa do gênero diferente do seu, você tem que lidar com o fato de ser tratado por algo que você não é. As pessoas acabam te tratando como uma pessoa hétero que nunca conheceu a dor da homofobia.

(Image via The Real Estreya)
(Imagem via The Real Estreya)

Quando você consegue passar despercebido, as pessoas começam a se perguntar se você “realmente” é bissexual ou deficiente ou o que seja, ou se você está apenas fingindo. Pode te salvar do ódio, mas se passar por algo que você não é pode magoar, porque você passa pela dor verdadeira de ser quem você é sem que as pessoas acreditem que é verdade. Você se esforçou muito para aceitar o que você é só para tudo isso não significar nada porque você é visto como “normal.” Talvez você passe despercebido, mas dificilmente isso parece um privilégio. 

“Está tudo na sua cabeça”

É perfeitamente lógico inventar que você faz parte de um grupo que sofre discriminação, certo? Totalmente! É demais receber tratamento especial por ser deficiente ou atenção extra por ser bissexual. Apenas pense nos benefícios por invalidez que você pode conseguir do governo! Esqueça que a atenção pode facilmente se tornar perigosa, que as pessoas as vezes se tornam violentas quando elas descobrem que você é gay, e que é bem difícil conseguir benefícios por invalidez. Faz total sentindo fingir uma deficiência ou uma singularidade sexual ou de gênero, pelo menos nas mentes de pessoas que não são invisivelmente deficientes ou gays.

Pessoas com depressão, por exemplo, lidam com um monte de besteiras do tipo “você está apenas fingindo”. Deus me livre se alguém os ver sorrindo ou rindo, porque ser deprimido significa ser uma bola sombria de coisas terríveis o tempo todo — claramente, pessoas deprimidas que sorriem estão apenas fingindo as suas deficiências mentais.

É um argumento que faz muito sentido, até que você percebe que isso é uma mentira completa e que não é assim que a depressão realmente funciona. As pessoas genderqueer lidam com isso também mas de um jeito estranho porque as pessoas nem sempre tem noções preconcebidas sobre genderqueerness. Muito frequentemente as pessoas pensam que isso não existe ou que é apenas uma fase.

Contudo, isso é totalmente sem sentido. Nós devíamos acreditar nas pessoas no que diz respeito às suas experiências e não dizer a elas que elas estão fingindo algo que normalmente é mais difícil de enfrentar do que percebemos.

Sim, há sempre a possibilidade de uma pessoa sem escrúpulos estar fingindo. Mas esses exemplos raros não fazem com que seja ok acusar os outros de mentir sobre as suas vidas. Afinal, há a possibilidade de que você vá invalidar a experiência verdadeira de alguém, e isso é muito pior do que qualquer validação que você possa receber por estar certo sobre eles mentirem.

(Imagem em destaque por Ehsan Khakbaz H.)

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