O Segredo Por Trás Do Álbum De 1982 Do Neil Young Que Não É Mais Vendido Vai Derreter Seu Coração

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O filme mais estranho do Neil Young, Human Highway, vai chegar aos cinemas em uma nova versão do diretor em 17 de abril. O filme apresenta músicas do Trans, indiscutivelmente o álbum do Neil Young mais inacessível, e também um dos mais difíceis de encontrar. Fora do catálogo nos EUA por anos, o álbum só está disponível para download atualmente no iTunes europeu.

Mas ainda mais surpreendente é esse fato pouco conhecido — Young começou o álbum como uma maneira de se comunicar com seu filho que sofre com paralisia cerebral. O escritor de cultura pop do Unicorn Booty Matt Keeley faz uma análise mais detalhada desse álbum de 33 anos e porque ele ainda é impressionante atualmente.

Em Trans, Young explorou sintetizadores e vocoders em vez dos esperados sons simples de guitarra que fazem partem com tanto destaque de seus trabalhos anteriores. Para acalmar sua gravadora, a primeira e a última música (“Little Thing Called Love” e “Like an Inca”) foram produzidas no estilo mais familiar do Neil Young: folk, acústico, vocais sem tratamento, etc. O resto do álbum… nem tanto.

Uma das músicas, “Mr. Soul“, é uma música antiga do Buffalo Springfield, rearranjada drasticamente do seu estilo original dos anos 60 em uma coisa totalmente diferente, cheia de sintetizadores pesados. É uma das poucas faixas do álbum que não distorce os vocais com um vocoder com sons robóticos.

Chamar o Trans de fracasso comercial seria um eufemismo. O álbum e o seu seguinte de rockabilly, Everybody’s Rockin’, foram a base de um processo da Geffen Records exigindo que Young reembolsasse eles pelos $3 milhões em vendas perdidas. A Geffen argumentou que eles assinaram com o Young com a intenção expressa de que ele entregasse álbuns do mesmo estilo clássico do Neil Young que chegou ao topo das paradas nos anos 70. Não é necessário dizer que a Geffen perdeu. Qualquer disco que o Neil Young lance, afinal, é por definição um disco do Neil Young, e como a Geffen tinha oferecido a ele total liberdade criativa, a causa estava perdida.

Apesar do fracasso comercial, Trans surgiu ao longo do tempo como um álbum influente para músicos da atualidade: Sonic Youth é conhecido pelo cover de “Computer Age,” e The Moog Cookbook (o projeto paralelo do Roger Joseph Manning, Jr. do Jellyfish com o bem conhecido músico Brian Kehew) o citou no encarte do primeiro álbum deles como uma influência.

Apesar de Trans ter provado ser mais influente do que inicialmente esperado, “Computer Age” potencialmente fala mais sobre as próprias influências do Young, mostrando traços óbvios de Computer World, o álbum referência lançado no ano anterior pelo Kraftwerk, a banda de maior sucesso na área da música eletrônica. A faixa de Neil, “We R In Control” ecoa a faixa título de Computer World tanto na letra como na sonoridade.

A música do Kraftwerk inclui essa letra:

Interpol and Deutsche Bank, FBI and Scotland Yard (Interpol e o Banco Alemão, FBI e Scotland Yard)
Business, numbers, money, people… (Negócios, números, dinheiro, pessoas…)
Time, travel, communication, entertainment (Tempo, viagem, comunicação, entretenimento)

…enquanto a letra de Neil é assim:

We’re controlling traffic lights (Estamos controlando sinais de trânsito)
We control computer flights (Controlamos computadores de voos)
We control the chief of staff. (Controlamos o chefe do estado maior)
We control the TV sky (Controlamos o céu da TV)
We control the FBI (Controlamos o FBI)
We control the flow of heat. (Controlamos o fluxo do calor.)

Tematicamente, Trans fala sobre comunicação e controle – temas que tinham significância extrema na vida de Young. Os filhos de Young nasceram com uma paralisia cerebral severa e não podiam falar ou se comunicar. Ele tinha acabado de comprar um vocoder e um Synclavier (um sintetizador sequenciador que talvez seja mais conhecido por ser usado pelo Frank Zappa em Jazz From Hell). Young percebeu como o seu filho Ben reagia quando ele falava através de um vocoder — Trans foi uma tentativa de se comunicar com ele.

Apesar de Trans ser uma exposição do problema de seus filhos — muitos dos vocais distorcidos e processados são difíceis de entender — não é só de seus filhos. O próprio Neil também parece estar tendo dificuldade de se comunicar nesse álbum.  Na fase de planejamento do álbum, ele queria inicialmente incluir um vídeo explicando onde ele queria chegar.  Em suas palavras, o vídeo seria “todas as pessoas com voz eletrônica estavam trabalhando em um hospital, e a única coisa que eles estavam tentando fazer é ensinar a esse bebezinho a apertar um botão”; talvez a metáfora dele para um músico acústico cercado por uma cultura cada vez mais tecnológica.

Em entrevistas, Neil Young disse que Trans é o álbum preferido dele mesmo. É o meu favorito dele também. E fico feliz que está voltando, mesmo que seja como trilha sonora no Human Highway — vai dar tanto aos ouvintes antigos quanto aos novos uma chance de apreciar o membro do Hall da Fama do Rock and Roll de um jeito que a maioria das pessoas esqueceram.

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