Por que criei o primeiro curso de poesia autobiográfica para idosos LGBT

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Se tivermos sorte, vamos ficar velhos. Devido a AIDS, não existem tantos homens mais velhos gays para nos dizer como é envelhecer, e como vivemos em uma sociedade que silencia as vozes queer e cultua a juventude, os idosos LGBT são parte de um dos grupos mais silenciados.

Conversas e conexões intergeracionais não acontecem devido a mobilidade limitada dos idosos e da dificuldade de acessar as mídias sociais, e os bares são intimidantes e pouco acolhedores. Como as gerações queer se conectam? Como os idosos LGBT se tornam confiantes para se expressarem quando eles tiveram uma vida toda sendo encorajados a esconder quem são e como se sentem?

Depois que eu realizei oficinas de escrita por todo os Estados Unidos com a juventude LGBT e pessoas vivendo com o HIV, eu me mudei para Los Angeles e criei o My Life Is Poetry (Minha Vida é Poesia). Foi o primeiro workshop de poesia autobiográfica para idosos LGBT. Isso foi há 11 anos.

Para te dar uma ideia do cenário em 2006: George Bush era presidente, Beyoncé lançou seu segundo álbum e discos de Blu-ray foram lançados. Era um ambiente cultural diferente, e minha ideia — criar uma plataforma para idosos LGBT compartilharem suas histórias de vida através da poesia — era revolucionária.

Idosos LGBT tem um índice de pobreza maior em comparação com os heterossexuais. Eu queria que My Life Is Poetry fosse de graça para que os idosos com uma renda comprometida pudessem participar. Felizmente houve financiamento com bolsas pelo Departamento de Assuntos Culturais de Los Angeles. O Centro LGBT de L.A. contribuiu com o espaço e com recursos.

Steven Reigns

O primeiro workshop teve uma participação incrivelmente grande. Todos os workshops seguintes tiveram números expressivos. Em um determinado ponto, haviam 42 estudantes na aula. A maioria dos workshops para escrita tem no máximo 7 ou 8. Eu nunca estabeleci um limite para a aula. Em vez de recusar estudantes, eu me tornei um instrutor melhor, capaz de administrar uma turma maior. Eu escolhi trabalhar mais em vez de excluir outros. Idosos LGBT já sofreram muita exclusão e rejeição, e eu não queria recriar isso na aula.

Eu escolhi ministrar esses workshops porque eu me preocupo com quem tem o privilegio de criar arte nesse país e quem tem espaço na mídia. Parece que apenas uma parte da população é representada. Todos os meus workshops, principalmente o My Life Is Poetry, é para ajudar as pessoas a encontrarem suas vozes, criando narrativas poéticas de suas experiências, e encorajá-las a acreditar que as histórias de vida delas tem importância.

Desde o começo do workshop, centenas de idosos assistiram a aula, milhares ouviram as leituras dos estudantes, um livro com seus textos foi publicado, um documentário de longa-metragem de leitura dramática foi produzido e um documentário de curta-metragem também. E esse ano o prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, me deu um Certificado de Reconhecimento, declarando que meu trabalho “tem sido de grande importância para intensificar o espírito de comunidade e melhorar a vida de todos os Angelenos.”

Tudo isso superou as minhas expectativas de quando eu criei aquele primeiro workshop.

Alguns momentos eu sempre lembrarei: A eletricidade sendo cortada durante um workshop e os estudantes dizendo que escreveriam com a luz vindo da janela e em vez de parar. Como os estudantes que às vezes pegavam quatro ônibus diferentes para ir a aula. Um estudante que adiou a quimioterapia até o período de aulas acabar. Estudantes que escreveram poemas que seriam lidos em seus funerais. E as incontáveis vezes que estudantes me dizem que o My Life Is Poetry mudou a vida deles.

Assista esse curta-metragem de Michael Saul que mostra o workshop de poesia para idosos LGBT:

 

Steven Reigns foi nomeado o primeiro Poeta Laureado de West Hollywood. Ele lecionou e instruiu workshops de escrita por todos os Estados Unidos para a juventude LGBT e pessoas vivendo com o HIV. Atualmente ele está em turnê com o The Gay Rub, uma exposição de frottage de marcos LGBT; auxilia o Clube de Livros Lambda Lit que é mensal; e está trabalhando em uma nova coleção de poesia.

 

Traduzido por Rafael Lessa.