Por Que as Mulheres Não Precisam do ‘Feminismo Branco’

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A hashtag #BlackLivesMatter já acumulou mais de 1,5 milhões de tweets desde a sua criação por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi. A hashtag colocou em evidência os assassinatos de Eric Garner e Michael Brown cometidos com motivação racial e desde então se tornou um slogan para os protestos antirracismo pelo mundo todo.

Mas apesar da grande repercussão do movimento Black Lives Matter, do grande número de mulheres por trás dele e do fato que as criadores da hashtag são mulheres negras que  se identificam como queers, websites feministas como Jezebel, XoJane e Feministing permaneceram todos relativamente em silêncio sobre as questões envolvendo a brutalidade policial, mesmo que eles tenham focado em outros acontecimentos como as acusações de estupro contra o Bill Cosby.

Faria sentido que em um movimento que se alimenta do “girl-power”, esse seria um assunto interessante para as feministas. Mas infelizmente, uma grande parte do feminismo convencional ignora questões que envolvem mulheres pobres, de pele escura, transgêneras e com necessidades especiais. Em resposta, muitas feministas negras e mulheristas (mulheres que não são brancas que lutam pela igualdade, mas sente que o “feminismo” é muito branco) chamam esse grupo que se esquiva de “Feministas Brancas.

why-women-dont-need-white-feminism-4Você não tem que ser caucasiana para ser uma Feminista Branca, e os problemas que elas não abordam vão além de apenas questões raciais. Sobretudo, o Feminismo Branco se refere a uma mentalidade acima de tudo, que tende a ignorar questões como o aumento do risco de mulheres com deficiência sofrerem abuso sexual, as estatísticas assustadoramente altas de assassinatos de mulheres trans e claro, mulheres negras sendo aterrorizadas pela polícia.

Inicialmente, muitas ativistas negras criticaram as feministas brancas por ignorarem especificamente questões que envolvem feministas que não sejam brancas. Mas o Feminismo Branco como uma forma de pensar é caracterizado por ter apenas um objetivo: elas tem uma causa (direitos das mulheres), uma opressão para combater (sexismo), e qualquer coisa além dessa causa específica é — na cabeça de uma Feminista Branca — apenas uma distração do Único Verdadeiro Problema (como o sexismo afeta o sucesso das mulheres).

Portanto, as Feministas Brancas focam em questões específicas que abrangem as mulheres brancas; elas lutam contra a diferença salarial em razão do gênero mas ignoram que a estatística frequentemente citada de que “as mulheres ganham 78 cents a cada dollar que o homem ganha” somente se aplica a mulheres brancas. Elas também só abordam questões que são especificamente das mulheres; ou seja, se não é um problema que afeta a todas as mulheres por causa do seu gênero, não conta. O foco limitado explica porque questões como #BlackLivesMatter não recebem tanta cobertura quanto deveriam — elas são vistas como se atendessem a um nicho de pessoas interessadas em questões raciais e não a mulheres interessadas em questões das mulheres.

Mas muitas mulheres não enfrentam apenas um problema; muitas mulheres não são apenas mulheres — elas também são mulheres que não são brancas, deficientes, pobres, gênero fluído, trans ou todas as anteriores. A intercessão de opressões que elas enfrentam não as deixam selecionar e escolher as suas batalhas. Mas quando elas tentam falar sobre os desafios específicos que elas enfrentam, elas são frequentemente acusadas de afastar o centro das atenções das verdadeiras questões das mulheres.

why-women-dont-need-white-feminism-2Por exemplo, depois que Elliot Rodger de 22 anos postou um discurso misógino no YouTube e depois saiu em uma chacina tendo as mulheres como alvo, a blogueira Stephanie Woodward escreveu sobre a hashtag resultante pró-feminista #YesAllWomen (SimTodasAsMulheres). As criadoras da hashtag esperavam que trouxesse atenção à violência que todas as mulheres sofrem diariamente. Mas no post do seu blog, Woodward observou que as discussões da #YesAllWomen ignoravam o fato de que as mulheres deficientes como ela frequentemente sofrem violência em maior proporção do que mulheres sem deficiências.

Em resposta ao post dela, as pessoas que comentaram começaram a acusá-la de causar distração ao “verdadeiro problema” da violência contra a mulher, a ironia sendo que a hashtag é “todas as mulheres,” e não “todas as mulheres sem deficiência.”

Vamos combinar, violência sexual contra mulheres deficientes é uma questão das mulheres, sendo apenas uma questão que é vivenciada exclusivamente pelas mulheres deficientes. O fato de que isso afeta um subconjunto de mulheres não faz disso uma distração, mas sim mais perigoso e, portanto, digno de atenção. Woodward deu a melhor resposta ao perguntar “As mulheres com deficiência não contam como mulheres? Nós não somos parte da sua população?”

Também é comum para as Feministas Brancas esquecerem de seus privilégios, como a Emma Watson fez no seu discurso nas Nações Unidas. Não me entenda mal — eu realmente gostei do discurso da Emma Watson, mas não teve nada de revolucionário em uma mulher famosa, rica, hétero, cis, branca falando sobre feminismo, mesmo que ela tenha levemente reconhecido o seu próprio privilégio enquanto falava.

O discurso da Watson apresentou a campanha dela “HeForShe (ElePorEla)” pedindo aos homens para ajudarem a acabar com a desigualdade entre gêneros. Mas enquanto discutia as diferenças injustas nas quais os meninos e meninas eram criados, ela se baseou principalmente no binarismo de gênero, reconhecendo levemente o espectro de gênero somente uma vez. O discurso dela também foi centrado na diferença salarial branca supracitada. E apesar de ela ter mencionado o longo tempo que as garotas rurais africanas vão ter que provavelmente esperar até que todas frequentem a escola, até isso pareceu ser um pouco de formalidade em vez de reconhecer ousadamente como a pobreza, raça e cultura constituem a discriminação que outras mulheres não-brancas enfrentam.

O discurso dela deu um introdução ok ao feminismo, mas não foi nem de longe inovador. Poderia ter sido mais se ela tivesse destacado o quanto a diferença salarial é maior para mulheres latinas, ou mencionado as atrocidades que as mulheres e meninas que não são brancas enfrentam por todo o mundo, como o casamento infantil e a mutilação genital feminina.

Infelizmente, seria ainda mais inovador no geral se alguém bem menos privilegiado tivesse feito o discurso. Afinal, o feminismo é a luta do oprimido, e aqueles que são mais silenciados deveriam receber os holofotes. Mas tal discurso provavelmente receberia menos atenção do que o da Watson — apenas outro exemplo de como raça e privilégio frequentemente triunfam sobre vozes oprimidas.

O Feminismo Branco recebe mais reconhecimento também na cultura pop. Apenas compare o apoio que a Emma Watson recebeu com as críticas que a Beyoncé enfrentou por tirar fotos ousadas depois da sua performance no VMA em frente a um telão com “feminista” escrito em caixa alta. Uma escritora feminista, Hadley Freeman do The Guardian brincou, “Ser fotografada usando roupa íntima não ajuda o feminismo.”

Possivelmente, e sendo uma celebridade rica, a Beyoncé é dificilmente a mais oprimida. Mas isso não anula o seu direito de se chamar de feminista. Lembre-se, o feminismo moderno criou a Marcha das Vadias — a marcha com mulheres seminuas reivindicando os corpos femininos depois de um policial de Toronto dizer que as mulheres são estupradas porque elas são umas vadias. Sendo assim, é uma contradição que feministas aleguem que uma mulher não é feminista se ela se comportar muito sensualmente.

No entanto, não há dúvidas de que a Beyoncé tenha recebido esse tratamento. Corpos negros geralmente são vistos pelo público branco em especial como sexualmente depravado, uma visão que se mantém desde os estereótipos da época da escravidão da mulheres negras “sexualmente insaciáveis”. A crença racista de que as mulheres negras são mais depravadas sexualmente do que as mulheres brancas se encaixa no antigo sistema de “dois pesos, duas medidas” de “política de respeitabilidade,” a mesma linha de pensamento que culpa as “mulheres vadias” pelo estupro e as pessoas negras pelo racismo que elas sofrem — se ao menos elas parecessem e se comportassem mais respeitavelmente! Então naturalmente, qualquer mulher negra que exiba sua sensualidade não é respeitável e desse modo não é uma feminista de verdade. Sendo assim, o Feminismo Branco rotulou a Beyoncé como “fauxminista”.

Deixando a raça de lado, outras mulheres má representadas, como as mulheres trans, também enfrentam a sua desassociação pelo Feminismo Branco. Em grande parte não é por malícia, mas principalmente por ignorância. Mas ainda assim é muito sorrateiro e pequenos exemplos aparecem por todos os lados.

Por exemplo essa paródia de “All About that Bass” em que uma mulher canta, “Tá bem na cara que eu não sou um cara” enquanto faz gestos apontando para a virilha e para os seios. Naturalmente, uma vagina e peitos são o que fazem uma mulher — assim disse nenhuma mulher trans na história! Além disso, as dançarinas predominantemente magras e brancas (com uma mulher asiática) também insultam o twerk como algo ridículo com a letra sarcástica, “Não se importe com seu cérebro, apenas faça twerk com seus atributos femininos.” Como uma defensora musical das mulheres de negócios duronas, a cantora não quis insultar mulheres trans ou movimentos de dança de mulheres negras, mas no entanto o fez.

why-women-dont-need-white-feminism-5Na extremidade muito mais ridícula e ignorante do espectro temos a “piada” da Sarah Silverman de que tudo que ela precisa é um pênis para que ela pare de ganhar 78 cents a cada dollar ganho pelos homens. Não levando em consideração que se ela de fato vivesse como uma mulher com um pênis, o trabalho dela resultaria em menos dinheiro e muito mais “assédio eternamente.”

E tem também a ignorância surpreendente exibida pela escritora feminista Caitlin Moran quando ela se descreveu em sua memória como uma jovem com o “entusiasmo alegre de um retardado.” Provavelmente não há nada menos interseccional do que usar um palavra ofensiva a toda uma demografia de mulheres deficientes mentais. Mas o Feminismo Branco como um todo não se importa com isso.

Felizmente qualquer feminista privilegiada pode evitar ser uma Feminista Branca com uma simples ação — ouvir.

Ouvir outras mulheres. Quando uma mulher que é diferente de você fala que ela vivencia algo que você não, não tire o crédito disso como um problema não-feminista. Pergunte para saber mais; abrace a oportunidade para explorar uma visão de mundo que provavelmente você nunca vai experimentar. Então acredite nelas quando elas dizem que os problemas delas são importantes para o feminismo.

Incorpore as experiências de mulheres diferentes de você no trabalho que você faz. Não seja uma Sarah Silverman; pense nas mulheres trans. Além disso, ouça a si mesma. Se você achar que você critica mulheres que não são brancas mais frequentemente por serem mais sexuais (ou qualquer outra coisa), tome nota. Faça uma autorreflexão para ver se você está praticando racismo sem querer.

Finalmente, escute às críticas. Se alguém diz que uma palavra que você está usando é ofensiva, ou que você sem saber insultou um grupo inteiro de pessoas, tome como um aprendizado. Não se trata de te envergonhar pelo seu privilégio, se trata de reconhecer o que passou despercebido pelo sua percepção com a esperança de que você perceba da próxima vez.

Eu não vou fingir que é fácil ser uma feminista interseccional. Pode ser difícil levar em consideração todas as experiências de todos os tipos diferentes de mulheres… mas não é impossível, e vale a pena. Torna as coisas mais fáceis para todas as mulheres a longo prazo. E quando não estamos pisando no calo uma da outra, podemos trabalhar mais rapidamente para acabar com o patriarcado juntas.

(artigo originalmente publicado em 8 de março de 2015)