Confira a segunda entrevista com usuário de PrEP no Brasil

Para ajudar você a entender o que é, pra quem é e como funciona a PrEP, uma nova estratégia de prevenção contra o HIV, que passará a ser distribuída gratuitamente no Brasil a partir de dezembro de 2017, o Hornet está fazendo uma série de publicações incluindo entrevistas com pessoas que já vivem a experiência de estar em PrEP a fim de ajudar a resolver as dúvidas de pessoas que poderão se beneficiar dela no futuro.

 

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Confira abaixo a segunda entrevista:

 

Rico Vasconcelos: Você poderia me dizer quando e por que decidiu iniciar a PrEP? Essa foi uma decisão difícil para você?

Yuri Buzo: Quando eu tomei conhecimento da PrEP achei uma proposta incrível e imediatamente comecei a me planejar para começar a tomar quando chegasse ao SUS. Entretanto, acabei sendo internado esse ano com meningite e tive que passar por um monte de exames, quando descobri que estava com sífilis. Apesar de saber que o tratamento é simples e que não estava em um estágio avançado, eu me senti muito mal, e por isso tomei a decisão de começar a tomar a PrEP antes de sair no SUS. Como tive dificuldade em lidar com o fato de estar com sífilis, não gostaria de correr o risco de ter que lidar com uma infecção por HIV. Então, em Julho desse ano comecei a tomar e não acho que tenha sido uma decisão difícil, porque se pensar nos fatos, eu me encaixo no público vulnerável e é apenas uma nova estratégia para me proteger. Eu sou hipocondríaco e mesmo que eu fizesse sexo seguro, sempre ficava preocupado e ansioso, e isso passou. Inclusive depois de um exame de HIV. Agora, chego até a esquecer de ver o resultado.

 

RV: Agora, vamos falar sobre como é seu cotidiano em PrEP. Você considera difícil tomar os comprimidos de Truvada corretamente? Você teve ou tem algum efeito colateral tomando ele?

YB: Acho muito fácil, coloquei um lembrete no meu celular para lembrar de tomar mas ele sempre tá em cima da minha mesa, então não tenho dificuldade nenhuma  e tomar. Não tive nenhum efeito colateral, no começo pensei que me sentiria mal como a PEP me fez sentir, quando tive que tomar. Fiquei surpreso pois para mim não teve reação alguma.

 

RV: Considerando sua vida e sua autonomia, você acha que alguma coisa mudou depois do início da PrEP? Na sua cabeça, nos seus medos e na sua vida sexual? E na maneira que você enxerga e se relaciona com pessoas que vivem com HIV?

YB: Sim, mudou muito. Eu me sinto muito mais confiante por ter a garantia e o controle de que estou me protegendo contra o HIV. E confesso que quando eu comecei a tomar eu achei que iria ficar meio relaxado com o uso da camisinha, mas na realidade seu uso nem é mais um problema como eu achava que era antes. Muitas vezes eu brochava e aparentemente eram apenas questões psicológicas mesmo, pela ansiedade que eu tinha e tudo mais. Mas agora eu sinto que tenho o combo completo. Eu me testo agora de 3 em 3 meses para HIV e outras ISTs, mas já estava acostumado a fazer de 6 em 6 meses. Com a diferença de que agora me sinto protegido contra o HIV. Eu sinto que foi um avanço poder enxergar as pessoas soropositivas de forma diferente. Não tenho mais medo delas. Com a PrEP nós temos a oportunidade de nos responsabilizar por nossa própria prevenção e cuidado, quebrando várias barreiras entre pessoas soropositivas e soronegativas.

 

RV: E finalmente, em relação ao mundo em que você vive, onde ainda poucas pessoas conhecem ou usam PrEP, quais foram e quais são as reações que seus amigos, família, parceiros e que a comunidade gay tiveram com o início da sua PrEP. Se houve alguma reação negativa, ela foi algo difícil de lidar?

YB: Todos meus amigos mais próximos sabem que eu tomo e eles estão aguardando sair no SUS para tomarem. No Hornet eu coloco “on PrEP” e já me peguei dando aulinhas do que é e como funciona para outros usuários que perguntaram o significado daquilo. Em relação à minha família, a princípio minha mãe não queria, mas acho que era mais o fato de ter sexo envolvido, o que tornava o assunto um pouco desconfortável, porém depois dela pesquisar um pouco sobre o assunto, e de eu explicar o porquê era um bom investimento, ela concordou.

 

Yuri Buzo tem 20 anos, é estudante e vive em São Paulo.