Conheça a história de gente que já está em PrEP no Brasil

A PrEP, nova estratégia de prevenção contra o HIV que chegará ao Brasil pelo SUS em dezembro, já é usada por mais de 100.000 pessoas no mundo todo, com excelentes resultados na redução dos novos casos de infecção e na melhora da qualidade de vida dos seus usuários.

No Brasil ainda temos poucas pessoas que escolheram usar a PrEP, alguns deles participando de projetos de pesquisa que realizamos para avaliar a viabilidade dessa implementação no nosso país, enquanto outros optaram por conseguir os comprimidos na rede privada.

Para entender como é a experiência de estar em PrEP no Brasil e ajudar a resolver as dúvidas de pessoas que poderão se beneficiar dela no futuro, entrevistei 5 usuários da estratégia e vou postá-las separadamente aqui no Hornet. Confira!

 

Rico Vasconcelos: Você poderia me dizer quando e por que decidiu iniciar a PrEP? Essa foi uma decisão difícil para você?

 

Marcio Caparica: Comecei a PrEP porque estava num relacionamento sorodiscordante, e meu namorado, além de soropositivo, ainda não havia começado a tomar qualquer tipo de medicação antirretroviral, ou seja, poderia me infectar com o vírus HIV se o preservativo se rompesse. Depois que me informei sobre o funcionamento e efeitos do medicamento, não houve dificuldade pessoal na decisão de tomar o medicamento. Sempre fui muito paranoico com relação ao HIV, e dispor de uma defesa contra a infecção cuja eficácia dependia exclusivamente de mim me deixava (e ainda deixa) muito mais tranquilo.

 

RV: Agora, vamos falar sobre como é seu cotidiano em PrEP. Você considera difícil tomar os comprimidos de Truvada corretamente? Você teve ou tem algum efeito colateral tomando ele?

 

MC: Nunca tive nenhum efeito colateral preocupante. Tive um leve ‘barato” nos primeiros dias, que depois nunca mais se repetiu. Por alguns meses também tive a impressão de que o intestino funcionava muito mais, mas agora ou me acostumei ou isso deixou de acontecer. Sempre fui muito eficiente em tomar o comprimido. Para isso por muito tempo levei os comprimidos comigo, para tomá-los ao longo do dia se por algum motivo esquecesse de tomar pela manhã. Agora associo tomar o comprimido a escovar os dentes antes de sair para o trabalho, e assim minha assiduidade é quase 100%.

 

RV: Considerando sua vida e sua autonomia, você acha que alguma coisa mudou depois do início da PrEP? Na sua cabeça, nos seus medos e na sua vida sexual? E na maneira que você enxerga e se relaciona com pessoas que vivem com HIV?

 

MC: Sempre fui alguém que, mesmo usando camisinha SEMPRE (e SEMPRE mesmo) tinha muita ansiedade em fazer exames de HIV. Isso quase acabou depois que comecei a fazer PrEP. Graças ao tratamento, pude transar algumas vezes sem preservativo, seja com o (agora ex) namorado, seja poucas vezes depois que voltei a ser solteiro, como ativo. Minha paranoia ainda não me deixa ser passivo sem preservativo, mas mesmo assim a PrEP ajuda muito minha paz de espírito – não fico apavorado com a possibilidade do preservativo estourar, por exemplo. Já me relacionava sem problemas com pessoas soropositivas antes de fazer PrEP.

 

RV: E finalmente, em relação ao mundo em que você vive, onde ainda poucas pessoas conhecem ou usam PrEP, quais foram e quais são as reações que seus amigos, família, parceiros e que a comunidade gay tiveram com o início da sua PrEP. Se houve alguma reação negativa, ela foi algo difícil de lidar?

 

MC: Na minha opinião o Truvada deveria ser colocado na água potável, junto com o cloro e o flúor. Se a epidemia de Aids afetasse principalmente heterossexuais, provavelmente isso já teria acontecido. Eu não espalho que faço PrEP e as poucas pessoas que sabem que faço o tratamento tiveram reações positivas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcio Caparica, 38, editor-chefe do blog e podcast Lado Bi, São Paulo

 

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