Conheça mais um usuário da PrEP no Brasil

Para ajudar a entender o que é, pra quem é e como funciona a PrEP, nova estratégia de prevenção contra o HIV, que passará a ser distribuída gratuitamente no Brasil a partir de Dezembro de 2017, o Hornet está fazendo uma série de publicações com o Doutor Rico Vasconcelos que está entrevistando 5 usuários da estratégia. Confira a terceira entrevista!

 

Rico Vasconcelos: Você poderia me dizer quando e por que decidiu iniciar a PrEP? Essa foi uma decisão difícil para você?

Victor Belizzi: Eu comecei a PrEP quando entrei no estudo PrEP Brasil e decidi entrar no protocolo pois queria me sentir mais seguro em relação à prevenção do HIV, e porque queria me envolver de alguma maneira no enfrentamento do HIV, assunto que sempre me assombrou. Pra mim foi bastante difícil a decisão de iniciar a PrEP, mas com apoio dos meus amigos e de toda a equipe do estudo, a experiência acabou sendo bem mais fácil do que eu pensava.

 

RV: Agora, vamos falar sobre como é seu cotidiano em PrEP. Você considera difícil tomar os comprimidos de Truvada corretamente? Você teve ou tem algum efeito colateral tomando ele?

VB: Eu achei extremamente fácil tomar os comprimidos de Truvada com boa adesão, mas eu sou do tipo de pessoa que sempre tem uma boa adesão a qualquer medicação ou coisa que precise ser feita. Eu sou um cara disciplinado, então foi facílimo tomar um comprimido todos os dias. Até porque eu já tomava comprimidos todos os dias, como por exemplo a Finasterida para a calvície. E acredite que eu não tive nenhum efeito colateral que pudesse relacionar com a PrEP. Foi como se eu não tivesse tomando nada.

 

RV: Considerando sua vida e sua autonomia, você acha que alguma coisa mudou depois do início da PrEP? Na sua cabeça, nos seus medos e na sua vida sexual? E na maneira que você enxerga e se relaciona com pessoas que vivem com HIV?

VB: Muita coisa mudou depois que eu iniciei a PrEP. Eu senti que muitos fantasmas que me assombravam deixaram de existir. Eu sempre tomei decisões que me colocassem em uma situação de menor risco de infecção por HIV. Por exemplo, acabava sempre ficando na defensiva no sexo, sempre usando a camisinha, preferindo ser o ativo no sexo, por conta da menor probabilidade de transmissão do vírus, ou evitando fazer ou receber sexo oral. Depois da PrEP eu senti que fiquei mais livre, conseguindo curtir mais o sexo com tranquilidade. Sem os fantasmas na cabeça. Eu já tinha o hábito de me testar a cada 3 meses, e apesar de estar fazendo tudo para me proteger, havia sempre o fantasma da infecção pelo HIV. A PrEP me fez amadurecer muito na vida sexual. Agora me sinto muito mais tranquilo e menos culpado, então pra mim ter começado a PrEP foi uma coisa muito boa. Eu tenho também muitos amigos que vivem com HIV. Hoje, depois da PrEP e da informação que não existe transmissão quando uma pessoa está fazendo seu tratamento corretamente e tem sua carga viral indetectável, eu consigo encarar isso com bastante naturalidade.

 

RV: E finalmente, em relação ao mundo em que você vive, onde ainda poucas pessoas conhecem ou usam PrEP, quais foram e quais são as reações que seus amigos, família, parceiros e que a comunidade gay tiveram com o início da sua PrEP. Se houve alguma reação negativa, ela foi algo difícil de lidar?

VB: Quando eu entrei no Projeto PrEP Brasil, as pessoas não tinham muito entendimento sobre o que era PrEP. Causava estranheza quando eu colocava no app “Negativo em PrEP”, e tinha gente que vinha me acusar “Você só quer saber de Bareback”. Hoje as coisas estão bem diferentes. Eu noto muitas pessoas agora falando sobre PrEP, e se empoderando com ela, dizendo que vão querer usar quando estiver disponível porque querem viver uma vida sexual boa, com saúde e sem medos. Então eu acho que nesse aspecto, a aceitação da PrEP mudou bastante. Acho também que principalmente dentro da comunidade gay, as pessoas estão agora em um dos dois grupos: ou são pessoas que vivem com HIV, que se tratando e mantendo suas cargas virais indetectáveis não passam o seu vírus, o que as coloca numa posição muito positiva e tranquila; ou estão no grupo de soronegativos que querem se manter assim com a ajuda das estratégias de prevenção como por exemplo a PrEP. E esses dois grupos estão vivendo juntos e se relacionando cada vez melhor. Aos poucos a gente está conseguindo falar sobre isso, de uma maneira mais natural. E as reações negativas, de julgamento, dizendo que já que você usa PrEP vai sair por aí trepando com todo mundo sem camisinha, elas ainda existem, mas estão diminuindo. E está crescendo uma abordagem que vê a PrEP como uma coisa positiva, muito mais de auto-cuidado e de auto-preservação do que de descuido. Eu fiquei um período sem PrEP quando saí do PrEP Brasil, numa época em que avaliei que estava conseguindo me proteger só com o preservativo, mas recentemente revi essa decisão e reiniciei a PrEP. A reação dos meus amigos foi bem melhor agora, e eu estou muito feliz e satisfeito por ter tomado essa decisão agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Bellizzi, 28 anos, médico dermatologista.