Putas, Michês e Piranhas: 9 Profissionais Do Sexo Dos Filmes Que Valem O Seu Dinheiro (E 1 Que Não)

This post is also available in: English

Apesar do título, o termo correto para alguém que oferece sexo em troca de alguma coisa — o termo decente, o termo humano — é “profissional do sexo.” Sugere que você tem um trabalho, para começar. Remove o julgamento. Mas não é isso que você escuta nos filmes.

Gigolô, michê, puta, piranha, garota de programa — é mais desse jeito. E assim é Hollywood: devagar na mudança, mas rápido na exploração. Mas então vem um filme ótimo, um filme onde as verdades humanas reais são desenterradas apesar de sua ideias ultrapassadas de moralidade. Arte faz isso as vezes, mesmo quando a língua está desatualizada.

Então aqui está uma amostra de como a história do cinema tem tratado a profissão mais antiga do mundo. Alguém procurando por assunto para uma tese?

Gigolô Americano (American Gigolo)

Esteticamente falando, os anos 80 começaram com o drama policial temperamental de Paul Schrader, onde Richard Gere interpreta um acompanhante de luxo enquadrado por homicídio. É elegante e bonito de se ver, um filme frio e sombriamente assertivo. E se não é exatamente progressista sobre o seu assunto — ele é, você sabe, superficial e triste e tudo isso, como os filmes esperam que os seus comerciantes do sexo sejam — a presença de Gere como um prostituto no controle de sua própria vida (mais ou menos, e principalmente porque o personagem é homem) foi pelo menos firmemente empreendedora e preparada para a época com ternos Armani.

A Melhor Casa Suspeita Do Texas (The Best Little Whorehouse In Texas)

Você não coloca no elenco Burt Reynolds e Dolly Parton em um filme sobre prostituição a não ser que seja uma comédia musical alegre, de natureza doce e calorosa sobre a prostituição no interior do coração do cinturão da bíblia no Texas, que é o que isso é. Os velhos bons rapazes e as meninas festeiras cantam e dançam, então as mulheres encaram o time inteiro de futebol da faculdade por dinheiro, e fazem parecer que é um trabalho que uma pessoa poderia realmente amar. No final, Dolly e sua equipe do sexo cantam “Hard Candy Christmas” e você chora. É adorável.

O Direito do Mais Forte (Fox and His Friends)

Fox é um operário que — enquanto faz programas por necessidade e, o mais importante, compra bilhetes da loteria que ele acredita que vai garantir sua vida — se envolve com uns caras emergentes, sofisticados. Esses são uns dos homossexuais mais malvados e frios que você vai ver nos filmes, e o roterista-diretor-estrela Rainer Werner Fassbinder mergulha fundo na crueldade humana nesse clássico cruel de 1975 do cinema que te faz sentir mal. Antecede (e desviscera) o vídeo do projeto “It Gets Better” por algumas décadas e dá um novo e horrível significado à palavra “amigos.”

Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience)

A revelação mais chocante na personagem livre de julgamento, estudada por Steven Soderbergh, que é uma acompanhante de Manhattan (interpretada pela estrela pornô na vida real Sasha Grey) é o seu retrato da qualidade totalmente banal do trabalho sexual. Grey estrela como uma mulher cheia de obrigações profissionais e financeiras quando a recessão quebra tudo a sua volta. Chame de uma prequela para Magic Mike do Soderbergh ou, como eu chamei em uma review na época do seu lançamento: A Prostituta Feliz Que Também é uma Psicóloga Profissional e Possivelmente um Pouco Solitária Porque o Seu Próprio Namorado Não Apoia Muito a Sua Escolha Profissional Mas Está Mais Preocupado Com a Carteira de Ações Dela Tomarem um Pau Nessa Economia Horrível.

A Alegre Libertina (The Happy Hooker)

Um produto da liberdade sexual dos anos 70, a memória de Xaviera Hollander era sobre escolher vender sexo como uma carreira lucrativa, uma decisão que ela não fez a partir de um desespero clichê, mas como um ato feminista. Hollywood veio correndo e a transformou em uma comédia estrelando Lynn Redgrave, cuja atuação é solta, confortante e sábia. Tão revolucionário quanto Garganta Profunda (Deep Throat) (tirando o sexo real), também serviu como uma crítica jocosa da sexualidade masculina; “Vocês são todos garotos,” Redgrave propõe no final do trailer. E você sabe que ela está certa.

E O Michê Vestia Branco (Hustler White)

Antes da internet e do seriado COPS espantar os acompanhantes gays do Santa Monica Boulevard, essa comédia romântica real, boba e vanguardista do Rick Castro e do cineasta canadense Bruce LaBruce capturou o último suspiro da rebelião sexual dos “gay por dinheiro”  dos anos 90. LaBruce interpreta um cineasta experimental alemão que está obcecado por um garoto de programa em particular (o modelo Tony Ward), vasculhando as ruas para encontrar o seu par perfeito e encontrando uma quantidade generosa de travessuras sexuais pelo caminho. É uma enérgica viagem, Warholiana pela narração clássica de Hollywood e estranhezas contemporâneas com a participação de estrelas pornôs gays da vida real, assim como artistas gays performáticos como Ron Athey e Vaginal Davis.

Klute – O Passado Condena (Klute)

Qualquer filme pode superficialmente tratar como doente mental um personagem prostituta, mas no thriller paranoico de Alan J. Pakula, a atuação de Jane Fonda de uma prostituta infeliz (confiante aparentemente, exausta e lentamente insatisfeita por dentro) é assombroso e humano até hoje. O filme de 1971 a fez ganhar um Oscar pelo sua representação de uma mulher ajudando um detetive (Donald Sutherland) em uma caso de pessoa desaparecida, que acaba sendo perseguida por um psicopata. É um desses momentos de sorte que o Oscar acertou.

Para Sempre Lilya (Lilya 4-ever)

Tráfico de pessoas e escravidão sexual é o lado oposto horrível e assustador de todo retrato para frente e com inclinação feminista de trabalho sexual consciente. E esse filme sueco agonizante de Lukas Moodysson (Nós Somos Os Melhores! (We Are The Best!)) — levemente baseado em fatos reais — explora o mais escuro dos mundos. Lilya (Oksana Akinshina) é uma garota Russa, abandonada por sua mãe, desamparada. Estupro, violência, escravidão, sequestro, e muito pior espera por ela, e não tem nada nem próximo de um final feliz. Se você ousar assistir, Moodysson vai fundo sem recuar (e, o mais importante, sem exploração) do seu assunto pesado.

Perdidos na Noite (Midnight Cowboy)

Solidão, desejo e desespero pairam no ar úmido desse filme de 1969 de John Schlesinger. O michê de rua Joe Buck (Jon Voight) e seu melhor amigo Ratso Rizzo (Dustin Hoffman) vagueiam por New York procurando por um lugar seguro, sem perceber que a cidade já descartou ambos. Um dos filmes americanos mais importantes de sua época pelo seu tema franco e expressões diferenciadas da sexualidade humana (homem-prostituto-como-protagonista-simpático não era o tipo de papel que Gregory Peck aceitaria em qualquer época do anos 60) assim como pela sua direção, edição, e atuações, ajudou a começar estilos mais corajosos de fazer cinema e de atuação no anos 70. Também foi o primeiro filme (e único) filme “pornográfico” a ganhar o Oscar de Melhor Filme.

Uma Linda Mulher (Pretty Woman)

Que filme estranho. Lançado em 1990, apresentou uma fantasia a lá Cinderella de uma prostituição limpíssima aprovada pela Disney e fez da Julia Roberts uma sorridente estrela do cinema de sucesso. Faz de tudo para agradar o público, nem um minuto parece ser verdadeiro (desculpe, Romy e Michelle, mas isso é fato). Mais estranho ainda, é coestrelado pelo Gigolô Americano Richard Gere como o cliente que se transforma em príncipe, para fazer um final muito esquisito para uma década de sexo glamouroso, elegante e vazio no cinema. Totalmente descartável e brega, um exemplo de feminismo reverso: por que as pessoas gostam tanto dele mesmo?

Comments are closed.