Às vezes demora um pouco a ‘ficar tudo bem’ para um LGBT recém-assumido

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Eu super amo o Dia de Sair do Armário. Eu amo entrar no Facebook e ver amigos que eu não fazia ideia que eram gays, trans, assexuais, de gênero não-binário, bissexuais ou pansexuais saindo do armário. E eu amo ver meus amigos que eu sabia que eram gays reafirmando a sua gayzisse saindo do armário publicamente para o mundo todo. É ótimo ver nossa comunidade expandindo, e o apoio incondicional que damos aos recém-assumidos ao se juntarem à família LGBT é inspirador.

Eu posso e vou sempre encorajar todo mundo a sair do armário, contanto que seja seguro para eles fazer isso, e contanto que eles tenham algum tipo de apoio incondicional de pelo menos uma pessoa na vida deles.

Repetidamente, pesquisadores tem detalhado as consequências negativas para a saúde mental de se permanecer no armário. Ao sair do armário é menos provável que você seja depressivo, cínico, estressado ou ansioso.

Para muitas pessoas é verdade. Mas para muitos outros não é.

Para colher os benefícios para a saúde de se assumir depende do cenário em que você anuncia sua sexualidade e/ou gênero. Se você sair do armário em um cenário relativamente (ou completamente) de apoio, então sim, grande parte da sua ansiedade e depressão pode de fato desaparecer. Mas se você não tiver apoio, uma pesquisa mostrou que você não necessariamente ganha esses benefícios para a saúde mental.

Pensa assim: Você tem 19 anos, não foi para a faculdade e mora em uma cidade pequena no centro-oeste. Você não vai se sentir liberado ao sair do armário. Você vai se sentir ainda mais isolado e sozinho do que você se sentia antes, principalmente se você não tiver apoio da sua família e não tiver espaços queer na cidade ou outras pessoas “assumidas” na sua cidade.

Além disso, pouquíssimas pesquisas abordam o “choque cultural” que acontece logo após a saída do armário.

Para muitas pessoas leva um tempo após a saída do armário para encontrar um grupo queer, entender a “cultura queer” e se acostumar com a interação com outras pessoas queer.

Eu me lembro de sair com um grupo de homens gays logo depois de me assumir. Eu me lembro de me falarem repetidamente que eu era um “gay ruim” por não assistir certo programas na TV, conhecer alguns músicos ou usar algumas peças de roupa. Depois de sair do armário, eu não queria ouvir que eu estava de alguma forma sendo gay “incorretamente.”

Se por um lado isso não me incomodaria tanto agora, na época eu tinha acabado de abraçar meu eu queer (como um bissexual). Ter minha identidade apagada por pessoas que deveriam me apoiar foi o oposto do que eu precisava.

Além do mais, eu achava que estava fazendo amigos com outros caras, e quando eu recusava dormir com eles, as mensagens paravam imediatamente. Os convites para sair desapareceram. Eu lembro de pensar, “Que merda de comunidade é essa?”

Namorar sendo uma pessoa LGBT pode ser uma coisa bem complexa. Homens gays e bissexuais agora tem que dar um jeito pelo mundo dos apps. Muitos homens gays também estão cansados e deprimidos. Há inúmeras dificuldades para namorar sendo uma mulher lésbica ou bi, também — ser fetichizada por homens é uma delas. E para mulheres trans e homens trans é muitas vezes um processo muito difícil devido à desinformação desenfreada e transfobia na comunidade LGBT e heterossexual.

E tem a misoginia, racismo, homofobia internalizada e fixação com tamanho que corre solta na comunidade queer, sintetizados por aquela frase muito conhecida “não curto gordos, afeminados, *insira raça aqui*.”

Muitas pessoas queer tem problemas com a bebida, justificando seu alcoolismo como parte da “cultura gay”. E também, a metanfetamina. Eu não poderia te dizer o número de homens gays que eu conheci em Nova Iorque que fumam metanfetamina. Qualquer um que tenha entrado em um app gay qualquer hora entre 3 e 7 da manhã pode relatar que já recebeu mensagens de vários homens perguntando se eles curtem “parTy.” (festa em inglês, sendo que o T maiúsculo é de Tina, que é um código para cristal [metanfetamina]).

Então para muitas pessoas, a parte difícil vem depois de sair do armário, não antes.

 

Mas não se preocupe, eu não estou acabando o artigo aqui. Dá para imaginar se eu acabasse? Seria deprimente demais e nem um pouco na vibe do Dia de Sair do Armário! Como eu mencionei antes, devemos encorajar todo mundo a sair do armário nesse dia e não desencorajá-los, nem um pouco.

Tem um lado muito positivo em sair do armário para aqueles que não experimentam os benefícios para a saúde em se fazer isso. Um lado positivo que faz ser assumido e parte da comunidade LGBT valer muito a pena.

Saiba disso: Você vai, em algum momento, encontrar um grupo queer de amigos que te entende, te abraça e te ama incondicionalmente. Esses amigos não serão como nenhum outro amigo que você já teve. Tem algo incrivelmente poderoso em ser você de forma descarada e autêntica, e em outras pessoas te amarem por aquela parte sua que você tinha tanto medo de revelar para outros por anos.

Essas pessoas são mais do que amigos. São a sua família que você escolheu. Quando você encontra elas, sua vida nunca mais vai ser a mesma.

Eu levei dois anos após sair do armário para encontrar minha família escolhida em Boston. Ter um grupo de pessoas queer (e sim, com um hétero para preencher a cota) como amigos que “entendiam” o verdadeiro eu. O marido do meu tio levou quase uma década para encontrar a família escolhida dele. Agora ele divide seu tempo entre a Massachusetts central e Provincetown e nunca se sentiu mais feliz — ou mais gay.

Você pode levar um mês, ou anos, mas você vai achar o seu grupo. E quando você achar, você não vai se arrepender de estar fora do armário. Você vai com certeza amar ser queer.

Então Feliz Dia de Sair do Armário! Se for tudo que você esperou que fosse, estou muito feliz por você. Se não for, não precisa se preocupar. Pode ser que demore um pouquinho mais de tempo.

 

Imagem em destaque por Deagreez via iStock

 

Traduzido por Rafael Lessa.

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