O sexo está bom para você?

Precisamos reconhecer que temos, ainda em 2017, dificuldades para falar sobre sexualidade, principalmente se esta for entre homens gays, quando o assunto corre o risco de cair na categoria proibido ou pornô. Já parou para pensar que sexo sem camisinha entre gays se chama Bareback e entre héteros se chama simplesmente Sexo?

Esse fenômeno de fato não é algo que acontece apenas aqui no Brasil, mas é no mínimo curioso constatar que, no país do funk carioca e de suas letras peculiares, o sexo gay é ainda um tabu. Entretanto, não quero aqui discutir o preconceito nem a homofobia institucional que poderiam ser a causa desse bloqueio.

Quero falar de sexo gay. Gays existem, eles não são poucos e fazem sexo. Será que esse sexo está bom como deveria ser?

Começando do começo. Não são todos os gays que podem conversar com seus pais ou parentes mais velhos sobre suas dúvidas quando vão iniciar sua vida sexual. Nem podem contar muito com a escassa produção mundial de séries de tevê ou filmes para cinema sobre o tema. Não podem nem mesmo recorrer a um profissional da saúde equivalente ao ginecologista, que resolve as angústias de milhões de meninas virgens ou ex-virgens nessa fase da vida, porque um profissional capacitado para isso simplesmente não existe no Brasil. Resta a eles então a internet, com o seu oceano de vídeos pornô e informações equivocadas, os amigos (quando existe essa intimidade) e a técnica do “vamos aprender fazendo”.

A verdade é que numa boa parte das vezes as coisas acabam não dando tão certo desse jeito. Em dois estudos realizados entre 2010 e 2013 nos EUA e na Bélgica, foram entrevistados quase 10.000 homens gays, com 18 anos ou mais, sobre qualidade de vida sexual, e nas respostas, 45% relataram ter tido recentemente algum grau de disfunção erétil (mais conhecida como “impotência” ou “broxada”). Broxar é a disfunção sexual mais frequente entre homens de qualquer idade ou orientação sexual e, assim como a baixa qualidade da vida sexual, é comumente associada a ansiedade na hora da transa.

 

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Entre os gays, existe um motivo a mais para ansiedade na hora do sexo: o HIV, que apesar de já ter um tratamento que é capaz de manter com sucesso a saúde de quem já é soropositivo, apresenta até hoje um número de novas infecções a cada ano que se mantem elevado e insiste em não cair como gostaríamos, se concentrando desde sempre de maneira muito maior entre os gays. Não existe um gay no mundo que não tenha pensado pelo menos uma vez no HIV durante o sexo e, no Brasil, mais do que nunca, isso deve fazer parte do planejamento sexual, já que dados recentes de 2016 mostram que quase 20% dos gays brasileiros já vivem com HIV (esse número era de 10% em 2010).

As ferramentas disponíveis para lidar com o HIV e sua prevenção estão se multiplicando. Se por mais de 30 anos o sexo gay foi considerado perigoso em relação à transmissão do HIV, hoje sabemos que o sexo sem camisinha com um soropositivo, que faz seu tratamento corretamente e mantem sua carga viral zerada, é tão seguro quanto o sexo com preservativo. Além disso, teremos disponível a partir de dezembro a PrEP, com igual proteção contra o HIV, para aqueles que não usam a camisinha porque não conseguem, não podem ou não querem.

Com essa prevenção combinada ao HIV, vacinação para hepatites virais e HPV, e testagem periódica para HIV e demais infecções sexualmente transmissíveis, enfim conseguimos aproximar a prevenção da vida real dos gays. E com isso é possível reduzir tanto as ISTs quanto a ansiedade relacionada a elas, deixando a cabeça livre para pensar no que realmente importa na hora do sexo.

O sexo gay deve ser algo pensado e não apenas feito instintivamente. Precisa ser encarado como parte da saúde de todos os gays e por isso cuidado como prioridade e com atenção aos pontos que precisam melhorar. Qualidade de vida sexual tem a ver com tranquilidade para encontrar os melhores caminhos de intimidade e prazer.

Já que o conceito de “sexo seguro” foi reinventado, você pode escolher as suas formas de prevenção da maneira que ficar melhor pra sua vida sexual. Transformando assim o “sexo seguro e gostoso” num fator de libertação e de empoderamento gay.

Não há nada de errado em querer um sexo bom pra você. Basta encontrar as melhores maneiras disponíveis para isso.

 

Este texto é uma contribuição do Doutor Ricardo Vasconcelos, médico infectologista e coordenador do PrEP Brasil.