‘Valeu a Pena?’: A Humilhação Virtual e Suicídio de Izabel Laxamana

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“Valeu a pena?”

No último mês de maio, o habitante de Tacoma, em Washington, Jeff Laxamana, postou um vídeo no YouTube. O vídeo mostra sua filha Izabel em pé no que parece ser uma garagem. Aos seus pés está um monte de cabelo, que foi cortado de sua cabeça. O homem por trás da câmera insulta a garota de treze anos, que responde em monossílabas.

“[focando no cabelo cortado] As consequências de se meter em encrenca. Cara, você perdeu todo aquele lindo cabelo. Valeu a pena?”

“Não.”

“Quantas vezes eu te avisei?”

“Duas.”

“Ok.”

Poucos dias depois, Izabel pulou de uma ponte e morreu.

Antes que Jeff pudesse remover o vídeo do YouTube, um dos amigos de Izabel fez uma cópia e o publicou novamente. Agora um debate se espalhou pela internet: Jeff Laxamana é responsável pela morte de sua filha? Seu vídeo humilhante no YouTube levou sua filha a cometer suicídio? Humilhação pública é uma forma de abuso?

Chapéu de Burro Digital

chapéu de burro, aluno, garoto, escola, lousa, encrencado, bart simpson, blog gay, lgbtJeff Laxamana não é o primeiro pai a usar a internet como forma de disciplina a base de humilhação. Em 2012, um homem da Carolina do Norte chamado Tommy Jordan enviou ao YouTube um vídeo de si mesmo atirando no  laptop da filha. Isso, disse ele, era punição por postar um discurso insultante no Facebook (um discurso que seu pai teve que burlar suas configurações de privacidade para ler).

O uso de humilhação como ferramenta disciplinar é muito mais antigo do que a internet, é claro. O uso do chapéu de burro nas salas de aula vem desde pelo menos o século 19. Norte-americanos têm se humilhado muito antes mesmo de os Estados Unidos serem um país.

A prática de cortar o cabelo de uma mulher para puni-la vem desde os tempos bíblicos, pelo menos. 1 Coríntios 11:5-7 diz:

5 Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. 6 Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. 7 O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem.

O cabelo, uma característica feminina poderosamente sedutora (embora, hm, tenho bastante certeza de que homens têm belas mechas também), deve ser controlado. Se não for mantido amarrado — se uma mulher não controle sua sexualidade apropriadamente — deve ser tirado dela. Homens não eram raspados. Claro, raspar a cabeça de um homem não tem o mesmo impacto. Um homem com uma cabeça raspada não é nada incomum. Uma mulher com uma cabeça raspada é problemática ou louca. Sua beleza, sua feminilidade, sua característica definidora, foi perdida.

No final da Segunda Guerra Mundial, membros da Resistência rasparam a cabeça de mulheres acusadas de se associarem com os alemães.

Französinnen, die der Kollaboration mit den .....en während der Besetzung beschuldigt sind, werden entehrt und durch die Strassen Paris geführt. Barfuss, Brandmale im Gesicht, den Kopf kahl geschoren.

Então a conduta de Jeff Laxamana não é nada de novo. O que a torna especial é o uso de mídias sociais. Nos velhos tempos, o estigma era geralmente limitado por região. Uma pessoa podia potencialmente se livrar da má reputação se mudando para outro bairro. Ou, de outra forma, a comunidade podia perder o interesse no escândalo e então parar de se importar. A vergonha iria embora com o tempo.

Mas na internet, nada vai embora. Nem há esquecimento; tem sempre novos olhos redescobrindo a foto ou vídeo vergonhoso.

Se distanciar do computador não é mais uma opção também, uma vez que a internet se tornou parte grande de nossas vidas. Lidamos com o banco pela internet. Pagamos nossas contas pela internet. Nos candidatamos a vagas pela internet. Nos mantemos informados sobre obrigações escolares pela internet e entregamos trabalhos pela internet. Mantemos contato com parentes distantes pela internet. Socializamos e fazemos novos amigos pela internet. Viver sem acesso à internet é como viver sem um telefone.

Consequências Inesperadas

Mídias sociais podem causar reações de grandes proporções. Um clipe ruim no YouTube pode originar inúmeros insultos vulgares e ameaças de morte.  Uma postagem zangada em um blog sobre uma ex-namorada pode se transformar em uma campanha de ódio de meses que tira mulheres de suas casas. Sua humilhação pode acabar sendo restabelecida num programa de TV exibido nacionalmente.  Suas caricaturas políticas podem ser manipuladas para te marcar como um neonazista.

Muito já foi feito a respeito de adolescentes trocando mensagens sexuais que não percebem as consequências de suas ações, mas geralmente são os adultos que não tem noção. O vídeo com porte de arma de Thomas Jordan no YouTube fez com que ele recebesse uma visita inesperada do conselho tutelar. E você se lembra daquela mãe que intimidou a colega de sua filha até a morte no MySpace?

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Thomas Jordan, um pai de Albemarle, em Carolina do Norte, que se gravou atirando no laptop de sua filha depois que ela fez uma postagem no Facebook insultando-o.

Jeff Laxamana com certeza não esperava que sua filha pulasse de uma ponte. Ele provavelmente achou que estava usando uma forma criativa de disciplina, um pouco de amor duro para colocar sua filha no caminho certo. Talvez ele tivesse ouvido sobre o Tommy Jordan e pensou em fazer igual.

E é óbvio que a maioria das crianças que são humilhadas publicamente não comete suicídio. A criança do Star Wars ainda está viva, assim como a filha de Tommy Jordan e Rebecca Black. As crianças forçadas a usarem o chapéu de burro não cometeram suicídio, de forma geral.

Mas Izabel Laxamana evidentemente era mais sensível que uma criança comum. Em 14 de agosto de 2014, sua conta do Google+, que é cheia principalmente de comentários em clipes de música pop do YouTube (essa garota pode muito bem ter sido a única comentadora do YouTube a dizer apenas coisas boas), mostra o seguinte comentário num vídeo chamado Sozinho:

Eu me sinto odiada a maior parte do tempo em que estou na escola, eu me sinto menosprezada e sou bastante julgada…. Mas o que me mantém indo em frente são pessoas como kian que passaram pelas mesmas coisas que eu… Numa escola com tantas pessoas é estranho dizer “me sinto sozinha”, mas a verdade é que você realmente se sente sozinho. Então obrigado por tudo, kian….

O vídeo mostra um jovem falando sobre a vida com ansiedade crônica.

Antes disso, em 9 de julho de 2014, Izabel comentara em um vídeo onde a pessoa falava de tirar uma pausa na produção de conteúdo devido a problemas de saúde mental.

É de comum acordo que dos comentários no YouTube não são suficientes para traçar um diagnóstico com relação a saúde mental. Mas não é difícil ver que a garota tinha problemas.

Então por que o pai dela não conseguiu vê-los?

(imagem via S•)
(imagem via S•)

Um Grito de Ajuda

Todos os adolescentes são esmagados por seus sentimentos uma hora ou outra. Todos eles colocam pra fora. Todos eles se tornam um pouco melodramáticos às vezes. Todos eles fazem coisas idiotas e se metem em confusão. Nem sempre é fácil para uma pessoa normal dizer se um adolescente tem um problema sério ou se ele está apenas sendo um adolescente.

O estigma do problema mental é outro fator. É difícil admitir que você tenha um problema mental ou um transtorno de humor. É mais difícil ainda para pais admitirem que haja algo de errado com seus filhos. Pais têm medo da culpa e de serem julgados se seus filhos forem diagnosticados com depressão, ansiedade ou uma desordem do espectro autista. Então eles continuam se comportando como se a criança fosse normal, como se a garota com transtorno de ansiedade pudesse ser punida com a neurologia típica.

E então os problemas crescem, sem tratamento. As crianças colocam se exprimem. Garotos adolescentes se comportam de forma antissocial, começando brigas ou quebrando coisas, o que chama atenção, mas faz com que os outros se afastem, tornando mais difícil o processo de conexões emocionais que podem ajudar a curar um coração machucado. Garotas adolescentes geralmente se exprimem de forma mais quieta, mais particular. Eles se machucam, não aos outros. E como resultado, elas são mais fáceis de ignorar.

Quando um garoto se mete em uma briga, figuras de autoridade devem responder. Haverá punição, mas também pode haver aconselhamento.

Quando uma garota para de comer ou começa a se machucar, figuras de autoridade não têm que responder. Elas podem ignorar ou dar de ombros, ou até mesmo virar os olhos. Corte um colega de sala e você enfrentará consequências. Corte-se, e nada acontece.

Veja a reação do público em geral a transtornos alimentares. Na pior das hipóteses, eles são tratados como ridículos. Na maior parte do tempo eles são tratados como dietinhas bobas inspiradas por revistas de moda, curadas por comerciais revigorantes. Na realidade, transtornos alimentares são a forma mais mortal de problema mental. Anorexia é duas vezes mais mortal do que esquizofrenia, três vezes mais mortal do que transtorno bipolar, e quatro vezes mais mortal do que depressão. Um quinto de mortes relacionadas à anorexia é resultado de suicídio; apenas 46 por cento dos sofredores se recuperam completamente.

Nós finalmente reagimos quando o sofredor faz algo drástico. Ou ela fica magra o suficiente para ser atraente. Ou ela corta os pulsos — cortando na direção errada, nós viramos os olhos. Não foi uma tentativa real de suicídio. Só um grito de ajuda. Ela só queria atenção.

Mesmo se isso for verdade, o fato de que uma garota sentiu que ela precisava passar uma lâmina pela própria carne apenas para ter atenção sugere que há algo terrivelmente errado.

Leelah Alcorn, transgênero, suicídio, internet, blog gay, queer, lgbt, transNós não sabemos o que Izabel fez, duas vezes, para deixar seu pai tão bravo. Mas o uso da frase “se meter em encrenca” por Jeff no vídeo do YouTube sugere abuso de alguma substância, talvez álcool. É uma infração típica de adolescentes. Também é um sintoma típico de um problema mental, uma forma de automedicação. Um grito de ajuda, em outras palavras. Outro pai poderia ter reagido ao comportamento de Izabel, qualquer que fosse ele, ao colocar a garota em terapia. Jeff Laxamana cortou o cabelo dela e colocou na internet.

Resultado

Jeff Laxamana se tornou o alvo da campanha de humilhação que ele tentou iniciar contra a própria filha. Cidadãos virtuais zangados gritam por sua acusação — por abuso infantil, ou até mesmo homicídio.

Ele será punido pelo sistema legal? Provavelmente não. Os pais de Leelah Acorn não foram. Algumas pessoas defenderão Jeff. Caramba, teve gente que defendeu até os Duggar.

Farão passeatas, hashtags e campanhas para conscientização pública. Nossas atitudes com relação a saúde mental não mudarão. O antigo costume de estigma social punitivo não irá embora. Uma hora, a maioria de nós se distrairá e mudará para outras formas de entretenimento menos mórbidas. Até o próximo vídeo no YouTube.