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Aprendizado: 6 coisas que mudaram minha vida na Parada LGBT de São Paulo em 2019 Escolhas do Editor

Aprendizado: 6 coisas que mudaram minha vida na Parada LGBT de São Paulo em 2019

Written by Marcio Rolim on June 25, 2019
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Aprendizado. Essa é a palavra que resume minha participação na Parada LGBT de São Paulo neste ano de 2019. Vivemos um momento político em que civis possivelmente poderão portar armas e, com elas, justificar seu ódio às minorias. Em que o chefe do governo fomenta raiva, medo, cortes em cuidados na saúde e violência contra mulheres. Em que sua equipe discursa questões sobre suas próprias religiões e esquecem de provimentos básicos à população.

Nesta Parada do Orgulho, presenciei não apenas a resistência, luta por direitos e esclarecimento sobre saúde, políticas públicas e respeito com pessoas diversas, mas aprendi que cada indivíduo precisa sair de seu próprio corpo e ocupar a cabeça, a vida e estado do outro para saber a verdadeira razão de se ter empatia e de dar voz a quem precisa ser ouvido. Um longo aprendizado.

Eis aqui 6 coisas que mudaram minha forma de ver o outro durante a Parada de 2019:

  1. Transição é uma necessidade além do desejo. Encontrei um rapaz que acabava de fazer a mastectomia e desfilou mostrando seus curativos, sorrindo e corando ao mesmo tempo. Perguntei a ele por que estava chorando, ele me contou que aquele era o dia mais feliz de sua vida, que o processo de transição finalmente fez sentido além de roupas “masculinas”, barba e nome de menino. Ele estava livre. E a cicatriz era sua maior conquista.
  2. Liberdade, infelizmente, tem que ser conquistada. Conversei com LGBTs muito jovens, que me contaram que saíram de casa escondido para vir ao desfile. Que tiveram, inclusive, que mentir no emprego e não poderiam colocar suas fotos nas redes sociais. Que estavam vivendo um momento individual de liberdade, mas que, quando o domingo acabasse, eles voltariam para a prisão da insegurança.
  3. O medo é um dos maiores de nossos inimigos. Muita gente procurou não se envolver nas questões políticas que permeiam a Parada por razões óbvias: medo. O medo de ser oprimido pela polícia, pelos amigos, pela família… valia estar ali para brincar, dançar, beijar na boca, mas para lutar… melhor não. Vai que um cacetete sobra em suas cabeças ou faca corta sua barriga no outro dia. Melhor não “se envolver com política”.
  4. Ainda nãos nos misturamos. Os grupos continuam separados por cor. Gente preta com gente preta, gente branca com gente branca, gente magra com gente magra, gente gorda com gente gora. Grupos de ursos, caminhoneiras, padrõezinhos, pocs… cada um em seus nichos, protegidos pelos seus, como se estivéssemos em um encontro de torcidas organizadas, prontos para nos atacar uns aos outros como inimigos.
  5. Nunca é tarde para recomeçar. Encontrei homens e mulheres LGBTs que relataram suas experiências de saírem do armário após os 50 anos e que estavam em seu primeiro desfile. Que aquele momento não era sobre ter experiência homossexual, o que já tinham desde sempre, mas sobre ser gay abertamente e poder viver isso antes que fosse tarde. Porque nunca é tarde. Eles estavam vivendo um recomeço de suas vidas naquele domingo de sol e tudo fazia mais sentido.
  6. Se soltar é a melhor forma de revigorar. Dancei como nunca, rebolei como nunca, beijei como nunca, gritei, chorei, abracei, elogiei, recebei elogios, carinho, amor, fiz meus amigos passarem vergonha rodopiando pele meio da rua. Por alguns minutos eu esqueci as contas, a ansiedade, a depressão, o pânico, a solidão, o medo, a distância da família. Esqueci tudo. Dancei como dava, porque aos 41 anos (e 25 de ansiedade) já não tenho mais tanto molejo, mas dancei. Soltei. Vivi. E agora, revigorado, sinto que há muito pela frente. Esse foi meu maior aprendizado.

Foto de capa: Marcio Rolim

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