Código Hays
Código Hays

O Código Hays e o cinema gay: a censura moral cristã

O cinema, a sétima arte capaz de nos emocionar, assustar, apaixonar, entre outras infinitas sensações riquíssimas a princípio foi marginalizado. Tendo sua primeira exibição em 1895, essa hoje influente arte era considerada sem futuro, tanto como seus diretores e atores, que nas palavras dos conservadores (sempre eles) “não tinham talento, pois se tivessem estariam no teatro”.

Foi lá pela década de 1910 que a arte finalmente recebeu seu devido status graças a nomes como D. W. Griffith e Charlie Chaplin principalmente, o cinema recebeu seu devido mérito e passou a ser admirado como uma nova arte, que a cada momento que se passava mais se renovava e se recriava, trazendo sempre surpresas a seus expectadores.

Nessa riquíssima arte todos os temas poderiam ser abordados, inclusive o que não poderia ficar de fora: homossexualidade. Acredita-se que o primeiro filme a abordar o tema seja “The Gay Brothers” (1898) de Thomas Edison, onde vemos dois homens dançarem uma valsa, porém o que primeiro abordou concretamente foi “Anders als die Anderen” (1919) de Richard Oswald, com a trágica história de um violinista “diferente dos outros” levado a se matar diante da chantagem com um código penal que punia severamente a pederastia (relações entre homens e rapazes mais jovens).

Nas duas décadas seguintes, o cinema gay discretamente se insinuava nas telas sob influências de vanguardas francesas, mas logo foi completamente derrubado pela influência religiosa no cinema que conseguiu empurrar para os produtores de Hollywood o “Código Hays, uma espécie de regulamento feito com o propósito de evitar que o cinema induzisse o público ao imoral, ao crime, à libertinagem e a qualquer obra que não fosse de acordo com os valores morais cristãos ocidentais. Eram proibidas a nudez, insinuação de nudez, de consumo de drogas, de miscigenação de raças, adultério, promiscuidade e é claro: comportamento homossexual.

Contudo, a censura moral introduzida pelo “Código Hays” acabou por não banir o tema do cinema, mas por forçá-lo a introduzir o tema de forma discreta e abstrata, alguns desses exemplos são verdadeiros clássicos como: “Festim Diabólico” (1948) de Alfred Hitchcock, onde os dois psicóticos protagonistas vivem juntos em um apartamento com apenas um quarto, “Juventude Transviada” (1955) de Nicholas Ray, onde o protagonista de James Dean e seu amigo Platão interpretado por Sal Mineo tem uma conexão fortíssima, além de amizade; a estranha amizade entre machos em “Ben-Hur” (1959) de William Wyler e a relação entre o imperador e seu escravo Tony Curtis em “Spartacus” (1960) de Stanley Kubrick.

Veio 1969, a revolta de Stonewall, os movimentos gays ajudando a abrir a consciência do mundo que estava em mudança, já aos poucos cansando-se dos valores morais que tantas mentiras lhes trouxeram, o esperado fim do uso do “Código Hays” mas o tema ainda era discretamente tratado, sempre com esteriótipos: travestis escandalosos em “Gaiola das Loucas” (1978), assassino e suas vítimas em “Parceiros da Noite” (1980) ou alguém reprimido que apela para a violência ao não conseguir suprimir seus desejos como em vários filmes deste período.

O que por incrível que pareça veio a trazer espaço para o tema homossexual no cinema foi o surgimento da AIDS nos anos 80… Embora de forma tardia, pois a princípio houve muita dificuldade a quem tentava! Cita-se de passagem uma tentativa em vão de Barbra Streisand de adaptar “The Normal Heart” de Larry Kramer. O primeiro grande filme a respeito do tema “Meu Querido Companheiro” (1990) de Norman René só saiu após seis anos de muitas respostas negativas de produtores e recusas de vários astros por medo de se perder na carreira.

Porém embora tentassem negar, o assunto ganhou proporções impossíveis de se ignorar, e Hollywood acabou cedendo ao tema. Os dois Oscars que “Filadélfia” (1994) de Jonathan Demme conquistou acabaram por atrair mais os olhos dos produtores, casais héteros passaram a ser envolvidos por alguns coadjuvantes gays sensíveis, dóceis e inteligentes que logo acabaram agradando.

Apesar disso, ainda hoje o tema da homossexualidade é discreto e pouco explorado no mundo da sétima arte, embora com diversas produções bonitas, é comum ver belas obras do cinema independente, porém difícil encontrar grandes produções tratando o tema com o mesmo carinho, tendo finais felizes como tão costumeiramente vemos nos filmes de romances héteros. Ainda assim é sempre bom se lembrar do passado e saber que houveram tempos em que era proibido na sétima arte se mostrar a existência de um amor entre pessoas do mesmo gênero e atentarmos para que jamais venhamos a ter tal tipo de censura novamente.