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5 coisas que aprendi trabalhando em uma rede social gay Escolhas do Editor

5 coisas que aprendi trabalhando em uma rede social gay

Written by Marcio Rolim on May 03, 2019

O ano era 2017. O Brasil já contava com pelo menos 8 apps de encontros exclusivos para homens gays e entre estes, pelo menos 3 estavam investindo todas suas energias por mais público, mais usuários e mais visibilidade, o que incluía conteúdo para redes sociais, notícias e engajamento.

Aos 3 meses de trabalho, meu casamento de 6 anos acabou (por razões que nada têm a ver com o meu novo emprego) e, então, me vi feito a Elza do Frozen cantando ao sair de seu castelo de princesa: LIVRE ESTOU! Pois é, eu tinha virado uma sub-celebridade do app de pegação mais bombado do país e estava livre para trans… digo, para voar.

O fato é que a visibilidade como editor de conteúdo do Hornet me trouxe muito mais que chances de sexo corriqueiro – aliás, isso foi o que menos tive nos dois últimos anos. Ao observar o comportamento dos usuários, aprendi que estamos distantes de uma união frente às nossas lutas por conquistas e igualdades, que o preconceito dentro da população LGBTI é um criador de guetos e cheio de rupturas e procurar por algo que antes, fazíamos sem ter um celular na mão, agora, olhando uma tela com fotos de peitos e pedaços de rosto, cansa.

 

1. O homem gay odeia a diversidade

Nós enxergamos o gay na rua, na fila do banco, na festa, no elevador e, com muita naturalidade, nos esquivamos daquilo que não é nosso “gosto” ou não corresponde ao nosso padrão de beleza. Mas não somos capazes de manter a naturalidade (e o respeito) no aplicativo de pegação. Os perfis estão recheados de ofensas grotescas e preconceito contra homens gordos, negros, velhos, afeminados e isso tem afastado esses homens cada vez mais do serviço que é feito para todos, sem nenhuma distinção, tornando a timeline uma vitrine de homens brancos, magros e peito malhado. “Não curto avô”, “questão de gosto, mas não curto negros”, “gordos e magrelos nem chamem”, “procuro semelhante”, “seja macho, não curto boy que mia” são algumas das frases mais comuns nas bios de usuários que acreditam estarem expressando apenas seu gosto por um tipo de homem, quando, ao bem da verdade, estão destilando ódio à diversidade dos corpos e desrespeitando um espaço que deveria ser ocupado por todos.

 

2. Tudo é possível, inclusive nada

 Depois de um mínimo tempo, percebi que é praxe fazer listinha automática de contatos para uma transa deixando de lado um carinha com quem você já marcou, já encontrou local e tudo mais. Por quê? Porque o cara encontrou “algo melhor”. Sim, somos meros produtos em prateleiras jogados dentro do carrinho e excluído na fila do caixa. E nada acontece. O “vamos marcar” vai se tornar um eterno necrológio (assunto de coisas mortas) que não vai levar a lugar algum. Se o produto que você escolheu não estiver pronto para comer, esquece! E se você não estiver também pronto para ser consumido, prepare-se para ser cozido por semanas, feito feijão em panela sem pressão, e torça parta que um dia aquele contato esteja com fome – e sem nenhuma outra opção.

rede social gay

 

3. Quem não malha não se cuida (contém ironia)

 Esqueçam os exames médicos anuais, o suco detox, a terapia, o desodorante e as férias merecidas. O que você precisa é malhar! Sempre que vir um perfil com a frase “curto caras que se cuidam” dá uma olhada na foto do cara… sacou? Ele é sarado. Saradão. E ele tem isso como cuidado. Não é vaidade, não é questão de saúde, nem de prazer, é cuidado consigo, portanto, o cara que não conseguiu músculos, o gordo, o magrinho, o cara com barriguinha de cerveja, ESSE CARA NÃO SE CUIDA. E já está fora do cardápio de uma infinidade de usuários que preferem caras que o que? Que se cuidam. Porque a gente só está bem cuidado se, aparentemente, você PARECE saudável.

 

4. Sua melhor foto é sua pior informação

Este bloco de texto não vai mudar nada, porque eu mesmo continuarei a colocar sempre minha melhor foto no perfil do app e nem sob o comando divino eu mudarei isso. Mas ela não transmite a sua realidade e isso quase sempre, vai gerar um incômodo na hora do encontro. O fato é que o celular na mão nos dá poder, e esse poder precisa ser demonstrado, exibido, exaurido. São filtros, sombras, ângulos, sorrisos, poses e cabelos que quase nunca estarão expressos na cara naquele exato dia e momento do encontro. Ah, isso vale para o ângulo da foto do seu pau, ok? Sabemos que a foto feita de cima expressa mais realidade, então o que fazemos? Uma foto por trás, pegando toda a extensão do bonitão que sempre, sempre, e para todo sempre, parecerá maior na foto.

 

5. Estar no app ou fora dele não muda seu status de gente

 “Eu não uso app de pegação”. Ah, gatão, você se sente o cara, não é? Aquele para casar, para levar no almoço de família, que não está atrás de sacanagem, que não curte se expor e que não está a fim de fast-foda. Então deixa eu te contar uma coisa: isso não muda nada em você. Se você disser que não acha legal transar com vários caras ou que prefere não se expor no app, porque quer algo sério, você é apenas mais um gay moralista e provavelmente hipócrita. O tempo nos trouxe a tecnologia e ela reconfigurou a forma de encontrar e conhecer pessoas. Paquerar na rua, na festa, na sauna, no app de pegação é a mesma coisa, a sua busca e suas intenções devem ficar expressas e elas sim, retratam aquilo que você quer e escolhe para sua vida, seu corpo. Menosprezar o carinha que tem perfil em 3 aplicativos é apenas uma forma de preconceito com alguém que está vivendo sua vida sem a permissão da sociedade, muito menos medos de ser feliz. Portanto, meu caro, se você não usa, parabéns! Se usa, parabéns também.